Sobre pintores, beatas e arquitetos: a controvérsia da Igrejinha

Fui à Igrejinha conferir o motivo de tanta controvérsia. A obra de Galeno está, aparentemente, concluída e será inaugurada amanhã, amparada por uma manifestação de apoio organizada por arquitetos locais (atualização: na verdade está marcada para as 16h deste sábado, 27/06, apenas a manifestação de apoio). Enquanto isso a disputa grassa, com três grupos reivindicando posições bem marcadas. De um lado há artistas, arquitetos, e cidadãos comuns apoiando a nova pintura. De outro, alguns freqüentadores da igreja protestando contra o que consideram o caráter profano da obra. Finalmente, há aqueles arquitetos que se insurgem quanto ao procedimento adotado pelo IPHAN. Não tenho especial simpatia pelo caráter doutrinário dos argumentos dominantes nos três partidos, mas compreendo as preocupações de todos.

Temática
Para quem não é de Brasília, ou viveu as últimas semanas num bunker sem luz, ar, ou jornais, a controvérsia em questão é a nova pintura mural da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, realizada pelo artista Francisco Galeno a convite do IPHAN. À primeira vista, nada com o que fazer um cavalo de batalha.
A primeira impressão, chegando de longe, é de que o interior da igreja ficou sombrio. O azul escuro do fundo mural não reflete tanta luz quanto a pintura clara anterior. Chegando perto, não chega a ser o caso e o pequeno tamanho da nave deixa entrar bastante luz. Em compensação, a imagem de Nossa Senhora se destaca de longe, com seu manto branco.
No painel central, o que mais chama a atenção, e uma das queixas das beatas, é que a santa não tem rosto. Artisticamente falando, até que o rosto me parece mesmo, nesse caso, desnecessário. Mas, e teologicamente? O cristianismo é único dentre as crenças modernas em enfatizar a individualidade da figura divina. Em especial, na religião católica (e na ortodoxa), a figura visível na imagem sacra de Cristo e dos santos é um elemento essencial da devoção. Num ensaio bastante radical mas instigante, Architecture and the Scandal of Particularity, o arquiteto americano Dino Marcantonio trata da abstração na arte e na arquitetura religiosa do ponto de vista da importância da individualização e figuração da salvação.

Do lado esquerdo, há representações muito estilizadas das três crianças de Fátima. A indignação das beatas (e dos beatos, não sejamos sexistas) contra as “cabeças de pipa” das figuras me parece exagerada. Primeiro, porque as figuras, fossem elas naturalistas ou estilizadas, só fazem sentido de fato para quem conhece a história da aparição em Fátima. E, conhecendo a história, a bom entendedor meia palavra basta. Afinal, crianças não gostam de empinar pandorgas?

Na parede da direita está o calcanhar de Aquiles de Galeno. Como a santa e as criancinhas esgotam a temática da história da aparição em Fátima, o artista teve que inventar alguma coisa para ocupar o espaço, e que não fosse repetir as figuras já representadas. E aí, a invenção foi bastante infeliz, tanto do ponto de vista artístico quanto do religioso. O conjunto de pandorgas, cornetas e canudos não identificados que ele pintou não apresenta uma unidade visual minimamente interessante, é trivial quanto aos objetos representados, e, como reclamam as beatas, teria seu lugar mais numa festa junina do que num local de culto. Não acredito que Galeno tenha escolhido maliciosamente inserir uma temática profana no espaço religioso. Parece simplesmente que faltou inspiração para criar uma imagem pertinente na terceira parede.
Técnica
Outro aspecto que talvez esteja deixando certas pessoas mais à vontade para criticar a obra é o seu ar de inacabado, com pinceladas que não cobrem inteiramente o suporte e que em alguns pontos parecem mais retoques desastrados aqui e ali do que intenções expressivas conscientes. Aliás, por falar em inacabado, não é preciso chegar muito perto para perceber as juntas mal-feitas entre as placas de gesso sobre as quais o artista pintou. O que dizer, então, dos medonhos bloquinhos de madeira sustentando os painéis murais acima do chão! Atualização: Segundo o autor do projeto, Arquiteto Rogério Carvalho, os bloquinhos de madeira que aparecem na foto ficarão escondidos pelo acabamento definitivo, quer dizer, reversível.
Ideologia
Não seria difícil, apesar dos aspectos polêmicos dos painéis, argumentar que de qualquer forma a Igrejinha está mais interessante agora do que antes (falando do passado recente, não dos murais há muito desaparecidos de Volpi) e que a obra de Galeno se harmoniza bem com a arquitetura. Não seria difícil, não fosse alguns argumentos surpreendentes que têm sido levantados recentemente, tanto contra quanto a favor (!!!) da intervenção, na lista de discussão Docomomo Brasília.
Iniciado com o convite do colega Danilo Matoso Macedo para a manifestação de apoio à obra, o debate sobre a pintura de Galeno tomou uma direção surpreendente. Os arquitetos Maurício da Silva Matta e Haroldo Pinheiro (este, ex-presidente do IAB local) prontamente se insurgiram contra a moção de apoio. Nas palavras de Matta:
Em minha opinião isso é um absurdo, uma verdadeira falta de respeito com o projeto original! Sem qualquer julgamento à obra do artista plástico Galeano, não tenho dúvidas de que a Igrejinha deva ser restaurada de forma a preservar a concepção original. Como somos um país novo e com uma hitória recente, parece-me que permanece o vício de tentarmos refazer nossa história mudando o passado, isso é um equívoco!
Rogério Carvalho, responsável pelo projeto de restauração da Igrejinha (a qual foi iniciada logo após a destruição de alguns azulejos na fachada posterior da igreja aparentemente por causa de uma tocha acendida por sem-tetos), respondeu num longo e criterioso e-mail, do qual cito apenas alguns trechos:
Entendo que restaurar é devolver unidade. […] A linguagem modernista e seus signos deveriam estar presentes não só na arquitetura e no paisagismo/urbanismo de seu entorno imediato, como também nos bens móveis e integrados à arquitetura.
[…] Entendi que deveria parar onde começava a hipótese. Por essa razão, defini que o que deveria ser restaurado no espaço relacionado ao painel idealizado por Volpi seria a ambiência que aquele painel produzia na igreja. Restauraria a intenção do artista. Ele tinha que ser respeitado tanto quanto todos os outros criadores daquele espaço. Ora, em local tão pequeno como a igreja, um mestre da cor como Volpi não erraria! Três paredes revestidas intencionalmente de azul cobalto produziriam introspecção; a nave ficaria ainda menor visualmente, seria promovido o encontro do fiel com Deus, não existiria nada além desse contato. Foi esta intenção, esta ambiência, que fez com que eu entrasse em contato com o Galeno para questioná-lo se aceitaria trabalhar conosco. Minha escolha pelo artista foi embasada naquilo que já conhecia de sua obra, e porque Galeno possui técnica, cromatismo e elementos de construção pictórica semelhantes aos de Volpi. Eu poderia ter um “quase” Volpi ou poderia ter novamente agregado àquelas paredes, arte de primeira linha. A escolha foi óbvia!

Em princípio, concordo com a postura de Rogério Carvalho de que a unidade, se ela existir, é claro, deve ser um dos valores preponderantes. O que me preocupa, porém, é que ambos os lados nessa discussão, apesar de aparentemente discordantes, comungam de uma mesma postura ideológica acerca da restauração, postura que, implicitamente, sugere dois pesos e duas medidas. Por quê? Matta diz: “não tenho dúvidas de que a Igrejinha deva ser restaurada de forma a preservar a concepção original.” Carvalho bate na mesma tecla: “A linguagem modernista e seus signos deveriam estar presentes”.

Agora, vamos imaginar essa discussão, não diante da Igrejinha, mas da capela de São Sebastião em Planaltina? Defenderia Matta que a “concepção original” da igreja devesse ser preservada a qualquer custo? Talvez, mas acho pouco provável, principalmente se estivermos falando de uma intervenção criativa como a da Igrejinha. Reforçaria Carvalho que “a linguagem colonial e seus signos deveriam estar presentes” numa nova intervenção? Duvido. Não sei quem foi o autor do projeto, mas a medonha, monstruosa, desengonçada rampa de acesso nos fundos (!) do Museu de Planaltina, construída por ocasião da última restauração desse imóvel, mostra claramente que a postura vigente na preservação patrimonial no Distrito Federal não é a de preservar a linguagem da arquitetura colonial.
Ao tratar da arquitetura tradicional, é Brandi no Céu e o Artigo 9 da Carta de Veneza na Terra. Mas, quando o assunto é o Movimento Moderno, de repente fazemos como se nem a Carta de Veneza, nem o pós-modernismo tivessem jamais existido. Na hora de dar aulas magistrais, todos os arquitetos enfatizam a diferença entre o modernismo da “fase heróica”, o do pós-guerra, o brutalismo, pós-modernismo, neo-modernismo, high-tech e não sei quantas outras linguagens mais. Temos até fases na obra de Oscar Niemeyer, segundo o Prof. Dr. Andrey Rosenthal Schlee, da FAU-UnB. Na hora de pôr a mão na massa, no entanto, a “marca do nosso tempo” passa misteriosamente a ser exatamente a mesma de quarenta, sessenta, quem sabe oitenta anos atrás.
Num aspecto, por outro lado, Carvalho demonstra ser coerente com os princípios (modernistas, diga-se de passagem) da preservação patrimonial, no caso o da reversibilidade. Para tanto, mandou instalar os já mencionados painéis de gesso, de modo que Galeno não pintasse sobre o próprio reboco da parede e sim sobre um suporte removível. Perdoe-me o arquiteto, mas isso me dá mais a impressão de um fetiche do que de uma postura teórica coerente — se ninguém raspar o reboco e as camadas mais antigas de tinta por baixo da superfície atual, o que haveria de irreversível numa pintura? Ou então o intuito inconfesso dessa reversibilidade não é proteger a arquitetura e sim a pintura, que poderá então ser facilmente retirada, quem sabe em caso de ameaça de vandalismo. Vai saber.
Conclusão
Por tudo isso não sei bem o que pensar dessa restauração criativa. A obra de Galeno certamente teve um impacto positivo na experiência do local, mas está aquém, tanto tecnicamente quanto pelo tratamento do tema religioso, do que poderíamos e mereceríamos ter numa das igrejas mais representativas da modernidade e da comunidade de Brasília. Infelizmente, após a morte de Portinari, D.J. Oliveira, e Athos Bulcão é difícil encontrar pintores de grande calibre que tenham uma boa mão para a arte sacra.
Só sei que ficar se prendendo a legalismos, à letra das Cartas e dos tratados patrimoniais, à necessidade ou não de consultar o “mestre” arquiteto, não resolve a questão. No fim das contas, fica a dúvida: essa intervenção é boa para a Igrejinha? É boa para a comunidade? É uma boa obra de arte? Sí, pero no mucho.
No Correio Braziliense
Matéria publicada hoje na coluna da Conceição Freitas sobre as manifestações pró e contra a obra de Galeno. Além disso, uma prova do obscurantismo que grassa na preservação patrimonial em Brasília: IPHAN e Niemeyer não querem o VLT no canteiro da Esplanada. É, obelisco pode, mas coisas úteis aos seres humanos não, né. (Atualizado em 27/06)
Comentários
Igrejinha
Prezado Pedro,
Li o seu texto e ri bastante! Afinal de contas é sempre bom ler linhas tão criativas...
Gostaria de rebater alguns dos seus argumentos, já que citas de maneira bastante (in)feliz algumas questões, parecendo questionar minhas posições enquanto autor do projeto.
Vamos lá...
Quando escreve que “chegando de longe, o interior da Capela ficou sombrio”, deves desconhecer o projeto original da Igrejinha de Fátima não é? Imagino que esse é o grande problema da maioria das asneiras que venho escutando de alguns meses para cá!
Santa falta de informação Robin!
O azul cobalto utilizado pelo Galeno é o mesmo que revestia as três paredes na pintura inicial da Igrejinha. Esse azul foi uma intenção de projeto do Volpi.... quem seria eu para discutir com o mestre da cor não é? Não sei se você teve contato com o trabalho de Alfredo Volpi em mãos...??? Posso lhe dizer que eu tive o prazer dezenas de vezes.
Também de maneira bastante engraçada, destaca o calcanhar de Aquiles de Galeno - o painel com brinquedos. Infelizmente a nossa sociedade forma de algum tempo para cá profissionais fantásticos que sabem perfeitamente resolver quanto de carga um pilar suportaria, porém, infelizmente não forma profissionais que tenham a mínima lida com arte, mais precisamente a plástica. Ah o curso de Belas Artes..... Daí uma conclusão imediatista como essa surge por aí em diversos cantos... Será tão difícil imaginar os três pastorinhos – crianças – brincando? A associação lúdica que Galeno propôs é linda, sensível, e o mais importante, faz parte de sua trajetória de vida! E o que seria da arte sem o significado da vida não é mesmo? Quanto à questão de inspiração do Galeno, acho que deverias dar um pulo no ateliê do artista em Brazlândia.... Veria quanto falta essa inspiração!
O ar de inacabado relatado em seu texto está sendo visto por aqueles que desconhecem o trabalho do artista, e o pior, desconhecem a obra de Volpi e mesmo assim insistem no palpite. Aquele “ar de inacabado” goste você ou não, é uma das características da obra de Galeno que podem ser comparadas ao Volpi. O ritmo da pincelada é o mesmo. O Volpi trabalhava com linha e cor, deixando claro com que tipo de suporte estava trabalhando, é por isso que ao olhar um quadro de Volpi, percebe-se em sua conformação, pontos mais escuros que outros e em vários momentos, quase que em uma aquarela, a cor esmaece.
Se o amigo soubesse disso, não citarias o “ar inacabado”- Ou até mesmo poderia, quem sabe né? Depende do olho...
Quanto ao painel, as “juntas mal feitas” são propositais..... Já ouviu falar de portabilidade, além das operadoras de telefonia móvel hein....? Não tenho a pretensão de que a minha palavra seja a última para a igrejinha, quem sabe daqui a 100 anos ou 1 ano seja necessária a sua retirada. Quem sabe o Robin e o Batman daqui a cem anos não conseguem um spray revitalizador da obra de Volpi.... Fico aqui rindo só de pensar! Ah, e os medonhos bloquinhos de madeira aos quais você se refere, fazem parte da estrutura que recebe cada painel..... E Pedro, acha mesmo que com as fotos que tirou, a igrejinha será inaugurada amanhã? Que tipo de obra você vem tocando meu amigo???? Ao final de tudo, volte lá e tire nova foto! Certeza de que o bloquinho não aparecerá, ok!!!!
Agora falando sério.... Você tem que ter razão em algo, afinal de contas deves ter passado um bom tempo para a sua juntada. Você tem razão na falta de unidade de posturas em relação ao restauro no Distrito Federal. Sabe o porquê? Centenas de arquitetos mal formados, em diversas faculdadecas onde a estética e a preservação patrimonial - se foram abordadas - foram apenas en passant. Em relação ao fetiche citado.... Diz a boa norma de restauro, que deves interferir o mínimo possível sobre o original ou aquilo que restar dele. Para que mais uma camada de tinta não é mesmo.....????? Gostaria de ser o operário para retirá-la se fosse preciso algum dia?
Espero que depois dessa nossa conversa entenda quão criativa é essa restauração, ou fique na dúvida se criativa é a sua argumentação!
Quanto aos possíveis pintores, acho que deverias tentar a entrada no curso de artes plásticas da UnB. Lá terias repertório mais vasto e adequado!
E para finalizar termino com as palavras de um dos maiores críticos de arte contemporâneo-moderna da atualidade – Olívio Tavares de Araújo, para a nossa diversão:
Olívio Tavares de Araújo (crítico de arte e curador das obras do italiano Volpi - artista que fez os afrescos inicias nas paredes da Igrejinha) declarou que quando se depara com a obra de Galeno se lembra de Volpi. E, ainda confirma: "Galeno tem um colorido e uma maneira curta e ritmada de aplicar a tinta que lembra Volpi.Galeno é intuitivo, Volpi também era.Galeno é erudito, Volpi também.E os dois têm essa fonte popular.Galeno tem um colorido de muito bom gosto e é bom ressaltar que não se trata de uma influência intencional, ele não procura imitar Volpi".
Grande abraço,
Rogério Carvalho
Arquiteto e autor do projeto de restauro da Igrejinha de Fátima.
E o público com isso?
Prezado Rogério,
Agradeço a sua contribuição para esta discussão. É sempre bom ter o mestre arquiteto disponível para debater o seu projeto. Acredito que concordamos em mais aspectos do que parece. Antes de mais nada, desculpe a minha santa ignorância, mas você viu em que condições o Bezerrão foi inaugurado? Claro que na Igrejinha ainda falta pelo menos o principal, por assim dizer, que é a recuperação dos azulejos…
Não vá tomar o meu comentário de que a igreja parecia sombria de longe como algo pejorativo. Essa escuridão destaca de longe a figura de Nossa Senhora. Além disso, não era Alberti quem defendia que a escuridão favorecia a introspecção religiosa? De qualquer forma o contraste entre a percepção a distância, que dá essa impressão de sombra, e a experiência muito mais luminosa no interior da própria nave é bem interessante.
O ar de inacabado da pintura pode até ser proposital, mas o que aparenta ser, apesar de não ser, não deixa de aparentar… Você fala no esmaecimento da cor, mas há diversas outras técnicas pictóricas que podem servir para dar essa aparência sem parecer inacabado — ainda mais que a qualidade plástica de uma aquarela é bem diferente daquela que aparece na técnica de Galeno. Antes de ser arquiteto já fui pintor, não dos melhores, nem tenho a pretensão de dizer que eu faria melhor do que o artista em questão. Mas um mínimo de conhecimento técnico e sensibilidade estética eu tenho, sim, a pretensão de possuir.
E por sinal, mesmo que eu fosse um completo leigo, não teria eu direito a expressar um juízo estético sobre a obra? Só os artistas e aqueles ungidos pela comunidade artística como “sabidos” têm “autoridade” para expressar um juízo? Acho que a boutade da Sylvia Ficher na lista expressa bem essa alienação que a nossa comunidade se auto-impõe com respeito ao público.
Quanto à discussão patrimonial agora. Estou interpretando mal o tom do seu comentário, ou você considerou o termo “restauração criativa” como uma ofensa? Enfim. É, retirar camadas de tinta dá trabalho mesmo. Aliás, fazer uma obra com a convicção de que ela tem potencial para durar, certamente não para sempre, mas por vários séculos, dá mais trabalho ainda, não é mesmo? Trabalho de questionar nossos pressupostos, nossas cartilhas intelectuais, nossos mestres. Discutir o modo como nossos artistas atuais trabalham, a iconografia que eles adotam, a nossa atitude diante dos monumentos arquitetônicos. Parar para pensar na viabilidade teórica e estética do nosso historicismo modernista, com a sua ênfase no provisório, no devir, que nos brinda com obras que, se não estão sempre intelectualmente mais passées do que o ecletismo que elas pretendiam superar, sempre estão fisicamente caindo aos pedaços ao cabo de cinqüenta anos.
Galeno certamente não é Volpi, e certamente não chega aos pés de Volpi. E certamente, dado o fetiche modernista pela originalidade, odiaria ser chamado de imitador do Volpi mesmo que isso fosse verdade. E eu não estou buscando o Volpi na pintura do Galeno. Estou buscando uma grande obra de arte, no padrão que a nossa capital merece, e não uma pinturinha bonitinha. Não é sua culpa, Rogério, afinal esse é um dos melhores dentre o corpo artístico de que dispomos em Brasília. Mas que não está à altura, não está.
Arquiteto e Urbanista e sócio do Ábaco
No Correio Braziliense
Matéria publicada hoje na coluna da Conceição Freitas sobre as manifestações pró e contra a obra de Galeno. Além disso, uma prova do obscurantismo que grassa na preservação patrimonial em Brasília: IPHAN e Niemeyer não querem o VLT no canteiro da Esplanada. É, obelisco pode, mas coisas úteis aos seres humanos não, né.
Arquiteto e Urbanista e sócio do Ábaco
Much ado...
Pedro,
Obrigado por participar de modo ponderado do debate em nossa lista do docomomo, enriquecendo-o com o artigo acima. Não me manifestarei na lista para evitar mais incompreensão - comum em debates acirrados. Os interessados de lá lerão meu ponto de vista aqui. Espero que a extensão de meu comentário abaixo compense a ausência de manifestações minhas com respeito ao seu post sobre o Príncipe Charles - assunto no qual não tive tempo de me aprofundar.
Quanto ao seu texto, achei por bem passar por aqui e fazer um pequeno esclarecimento e alguns comentários sobre o tema.
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O convite foi encaminhado por mim à lista, e não feito por mim. Na verdade, trata-se de uma iniciativa das artistas plásticas que assinam o e-flyer - a quem eu não conheço. Não tive qualquer relação com a organização da manifestação e, como qualquer um de nós, recebi o convite que repassei para a lista. Tomei o cuidado de repassar em meu nome - e não no nome do docomomo, como de costume - de modo a não associar a instituição com o ato ou o painel.
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Achei boa e perspicaz a aproximação das motivações entre Maurício e Rogério.
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Acho que é consenso hoje em dia que as diversas correntes e teorias do restauro devem ser abordadas e adotadas segundo a situação específica do objeto a ser restaurado. Não há porque cobrar a mesma postura terórica para objetos diferentes de épocas diferentes. Há até um bordão comum no ramo: "Restauro é caso a caso". O mesmo restaurador pode ter uma atitude "idealista" - com vistas a recuperar a feição original ideal "que pode jamais haver existido" - em um caso e uma atitude conservacionista em outro caso. Qual o problema? Não entendi sua bronca nesse sentido.
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Não acho em absoluto que seja fetichismo a realização da pintura sobre painéis. Embora o Rogério tenha se esquecido de mencionar, o que pode realmente ocorrer é que alguns dos elementos químicos da pintura nova penetrem nos poros da tinta do afresco anterior, colaborando para sua deterioração. Acho que o painel solto da parede é, sim, uma boa solução técnica com vistas à reversibilidade.
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Acho que desqualificar peremptoriamente o artista e não a obra é pouco prudente. Afinal, os próprios modernos foram bastante desqualificados pela crítica em seu início. O próprio Galeno pode ter um futuro brilhante no ramo da arte sacra, e pode tornar-se um mestre dela. E nesse caso, a pintura da igrejinha passaria a ser valorizada "a priori" por ser dele - também erroneamente. Acho que no campo da arte algumas leituras só são possíveis com o tempo. Acho inclusive que esta polêmica toda certamente impulsionará a carreira de Galeno.
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Atiçando a polêmica: acho que a Igrejinha é uma obra com uma importância histórica inegável para a cidade - e por isso merece ser tombada e preservada. Como arquitetura, entretanto, considero-a uma obra menor não apenas de Oscar Niemeyer, mas da arquiteura moderna brasiliense em geral. Portanto, no meu entendimento, estaria longe de ser "uma das igrejas mais representativas da modernidade e da comunidade de Brasília" (no seus termos). Se delicado jogo de curvas da nave principal talvez a aproxime da arquitetura das capelas de Niemeyer - via Ronchamp -, o conjunto da obra é certamente triste. A marquise que a caracteriza, com os pilares ocultos na alvenaria, - quase que em balanço na verdade - é uma alegoria estrutural visivelmente desonesta* e funcionalmente pouco efetiva. Não protege da chuva, não fornece sombra e dá um caráter monumental indesejado a uma capela de bairro. Os azulejos de Athos no local, convenhamos, não são suas melhores produções. Os motivos figurativos - em plena explosão do concretismo no Brasil - e o ritmo regular das peças tornam a composição no mínimo ingênua, para não dizer ruim mesmo. Ironicamente, o único ponto de vista em que a igreja lembra a elegância e serenidade das obras do autor, é na vista de fundos, voltada para a escolinha, onde a horizontalidade da marquise reconecta o conjunto com os palácios e - por extensão - com outras obras da cidade, como a Faculdade de Educação, de Alcides da Rocha Miranda.
Faço este comentário apenas "de raspão", pois acho que em nada esse desmerecimento deveria alterar a atitude de um restaurador para com a igreja. É tombada. É patrimônio. É relevante, enfim. Deve ser tratada com cuidado e respeito como objeto de preservação - como certamente é o caso da intervenção em questão.
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Embora haja elementos restaurados (os azulejos, por exemplo), não posso concordar que conceitualmente a intervenção na igreja seja chamada de restauro. Não acho que seja um restauro. É uma intervenção propositiva que altera a leitura do objeto original. O objeto não recupera sua originalidade nem seu aspecto anterior à intervenção. O painel artístico que não corresponde à pintura original (autenticidade original) nem com as diversas pinturas "lisas" que se sobrepuseram sobre ela (autenticidade histórica). Portanto, a rigor, não creio tratar-se de um restauro. É um projeto de arquitetura propositivo. Uma "intervenção artística". para usar o jargão do patrimônio, mas não restauro.
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Há tanta descaracterização "anônima" sendo feita pela cidade afora. Tanta destruição na calada da noite. Acho curioso que vire motivo de polêmica justamente um projeto de preservação bem estudado, feito por arquitetos e executados por artistas plásticos. Por que as denúncias constantes de descaracterização de nossos edifícios não têm a mesma repercussão que este debate? Porque só a Conceição Freitas e a Helena Mader deram ouvidos à denúncia que fizemos quando da colocação do banner na empena do Senado? Porque ninguém se sensibiliza com o sem-número de antenas e outros "gadgets" colocados a torto e direito sobre prédios que não os comportam, como os Ministérios ou mesmo o Congresso Nacional? Os edifícios da 108 sul mesmo, vizinhos da igrejinha, foram reformados com materiais piores que os originais, tiveram seu pilotis fechado, e ninguém polemizou isso na imprensa. Mesmo as sucessivas alterações que foram feitas na Igrejinha: a maioria ocorreu sem maiores repercussões. Agora que alguém planeja, executa com cuidado, a coisa vira uma polêmica? Que triste... Parece uma espécie de convite ao improviso, ao desleixo. "Faça esculhambado que ninguém vai perceber. Faça planejado e será escrachado"...
*Não que eu acredite em honestidade estrutural, mas esse era um dos preceitos da época.
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Bom, acho que por hora é só. Continuamos aguardando um artigo seu para a mdc...
Abraço
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