Príncipe Charles 2 X 0 Modernismo
Trombetas vão soar! Tambores vão rufar! Arquitetos, às vossas armaduras de vidro e aço, às vossas lanças de concreto! O Anticristo que conversa com cenouras profanou a arca do Espaço-Tempo-Arquitetônico, humilhou os sacerdotes da Igreja de Santa Zaha, e se dirige contra a Cidade Radiante para combater as hostes celestiais de Mestre Corbu! O quê? Ahhhh, sim, a que vem essa mobilização geral?
Bem, conforme discutido anteriormente neste post, o Príncipe de Gales, Charles, andava furioso com a proposta do escritório de Lord Richard Rogers para um projeto de parcelamento e incorporação imobiliária em Chelsea, um bairro tradicional de Londres. Pois o jornal London Evening Standard noticiou hoje que a empresa Qatari Diar, de propriedade da família real do Catar e incorporadora do sítio em questão, desistiu do projeto original de Rogers.
Para a incorporadora não perder a cara, anuncia-se agora que o projeto de Rogers — antes divulgado como se já estivesse aprovado — teria dificuldades em passar pelo crivo do English Heritage (o IPHAN de lá), das meramente consultivas mas barulhentas associações de moradores do bairro, e das próprias instâncias administrativas de planejamento urbano. A Prince’s Foundation for the Built Environment, fundada e apoiada por Charles, está cotada, ainda segundo o Evening Standard, para assumir a tarefa de escolher o novo urbanista do projeto. A verdade é que, segundo a coluna de Jonathan Glancey no The Guardian, a empresa desistiu do projeto atual dias antes da avaliação do órgão de planejamento de Westminster. Fugindo de uma provável rejeição à proposta ou evitando constranger o Príncipe, amigo do xeque do Catar, em caso de aprovação? Um relatório técnico favorável ao projeto de Rogers, citado hoje mesmo no Telegraph, sugere que a segunda hipótese seja a mais provável, apesar de que nunca se sabe o que pode acontecer numa deliberação pública, sob a pressão dos cidadãos e dos políticos.
Então, pura disputa de poder e influência pendendo em favor da Família Real? Até certo ponto, sim. Enquanto que o vice-prefeito de Londres Kit Malthouse e os moradores de Chelsea se opunham ao projeto, Rogers tinha a aprovação de muitos de seus colegas arquitetos, preocupados com a influência de um “não-especialista” em assuntos de arquitetura, e do Council for Architecture and the Build Environment (ver este outro artigo), uma agência pública com poder de decisão quanto à qualidade arquitetônica de empreendimentos, inteiramente aparelhada por modernistas. Nos comentários a este artigo do Daily Mail, os leitores se manifestam em massa do lado do Príncipe.
De qualquer forma, não vou me manifestar hoje sobre o mérito do projeto por dois motivos: primeiro, já dei minha impressão inicial no outro post do blog; segundo, as imagens que aparecem nos jornais não permitem avaliar o projeto de Rogers. Quanto ao processo que se desenrola, pode-se dizer sem sombra de dúvida que, sim, o Príncipe Charles usou sua influência pública e pessoal para pressionar a Qatari Diar a ouvir o clamor da vizinhança. Por outro lado, também não há dúvida de que os arquitetos que apoiaram Rogers estão mais preocupados com o prestígio e a autoridade da sua profissão do que com a qualidade do projeto em questão.
P.S.: O 2 X 0 refere-se à outra intervenção famosa de Charles, em 1984, quando ele conseguiu impedir que fosse construído um anexo modernista à Galeria Nacional de Arte em Trafalgar Square. Naquela ocasião, acabou sendo executada uma contra-proposta pós-modernista de Venturi Rauch Scott Brown, bem mais discreta.
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