Responder a este comentário
Ensino de arquitetura e o patrimônio histórico
dom, 11/04/2010 - 13:17 — Pedro P. Palazzo
A incapacidade da arquitetura e principalmente do urbanismo modernistas de criar cidades propícias à vida humana é bem conhecida e foi proclamada desde os anos 50, a ponto de se tornar um consenso no mundo civilizado — como sempre, o nosso país tem algumas décadas de atraso no assunto — e de alavancar o surgimento de tendências alternativas, principalmente o pós-modernismo em arquitetura e o Novo Urbanismo. Já as limitações específicas do ensino modernista em arquitetura foram reconhecidas mais recentemente.
A Declaração de Viseu, assinada em 2004, é a carta de princípios de uma conferência de urbanistas europeus quanto à formação de futuros arquitetos. A declaração tem como objetivo reformar o ensino de arquitetura, de modo que as conquistas teóricas que superaram o modernismo sejam diretamente incorporadas à formação dos estudantes. Isso porque, na esfera acadêmica, freqüentemente se perpetuam os mesmos princípios e dogmas do modernismo canônico que comprovadamente causaram a degradação do ambiente urbano nos últimos 60 anos. Enquanto o marco teórico foi reformado por diversos arquitetos e críticos, alguns dentro da própria academia, o ensino ainda se dá essencialmente com base numa didática antiquada, onde conceitos estranhos à disciplina — utopia, modernidade e sociologia são alguns dos temas mais populares — continuam a ter precedência sobre o que é verdadeiramente território da arquitetura — construção, utilidade e estética. Ao mesmo tempo, perde-se tempo e energia discutindo meros detalhes do ensino de arquitetura, como saber se o CAD é ferramenta de projeto ou simplesmente um instrumento de desenho.
Nesse contexto, a Declaração de Viseu é um passo à frente, ainda que sua implementação vá provavelmente levar anos até vencer a resistência do establishment universitário, conservador por natureza. Mesmo assim, o problema do ensino de arquitetura é mais grave do que simplesmente obrigar o aluno a ir buscar fora do ambiente de aprendizado as novas tendências teóricas. O ensino modernista de arquitetura é especialmente perverso no tocante ao patrimônio histórico. Na primeira metade do século XX, o aluno das escolas de Belas-Artes pelo mundo afora aprendia, além das inovações recentes em concreto armado e ferro estrutural, as técnicas milenares de construção em alvenaria e madeira (vamos deixar as questões estilísticas de lado e pensar apenas no ensino de tecnologia). O aluno de arquitetura de hoje passa boa parte de seu currículo de tecnologia aprendendo sobre — e já que o ambiente é propício, se interessando por — materiais de alta tecnologia, inovadores, em combinações inusitadas, e suas vantagens muitas vezes usadas para solucionar problemas criados pelas desvantagens de outros materiais inovadores que também tinham lá suas vantagens.
Por outro lado, não resta nada do antigo conhecimento sobre os materiais e as técnicas de construção tradicionais, que as vanguardas fizeram questão de esquecer. Para boa parte dos arquitetos, que vai trabalhar com pré-moldados, arranha-céus em aço, ou mesmo casas particulares com estrutura em concreto, pode fazer pouca diferença, e não passaria pela minha cabeça defender o uso da taipa de mão em um terminal de aeroporto. Mas para quem vai se profissionalizar na área de patrimônio histórico, ou mesmo para o arquiteto que vai ter que lidar, pelo menos uma vez na vida, com intervenções num edifício ou distrito histórico, a lacuna é trágica.
A única solução para o problema, atualmente, é reaprender estas técnicas tradicionais quando o arquiteto já está no mercado de trabalho ou no gabinete do IPHAN, perdendo tempo, desperdiçando dinheiro público ou do cliente, e correndo o risco de cometer erros irreparáveis por desconhecimento do sistema tradicional. No atual sistema da arquitetura, tudo o que é novo é tido como automaticamente superior ao que veio antes; a própria preservação do patrimônio não é justificada pelas qualidades intrínsecas da cidade tradicional, mas por valores abstratos e externamente determinados como a importância de se proteger o "documento histórico" e a "memória coletiva". Assim, a maioria de professores e alunos que não se dedica — nem tem a obrigação de se dedicar — ao patrimônio contribui para a inércia de um sistema antiquado, avesso ao pluralismo, e ainda perde a oportunidade de comparar as vantagens respectivas dos métodos antigos e recentes. Só para contrastar, nas escolas de música (nas boas, isto é) se ensina, ainda hoje, a compor fugas barrocas, rondós e sonatas, para depois abordar a música dodecafônica, atonal e todas essas modernidades. Ensinar, ensinar bem, e ensinar de maneira abrangente é a obrigação do curso; cabe ao aluno, então, decidir se aproveita ou descarta certo ramo do conhecimento.
Conhecimentos tradicionais e a prática construtiva
Quem mais perdeu com essa transição do tradicional com o moderno foram os ofícios manuais da construção. Qualquer um que já tenha pisado num canteiro de obras brasileiro sabe quão raros são os pedreiros e ajudantes que conseguem executar um serviço bem-feito e dentro da especificação. Isso em contraste com os pedreiros de antigamente, que contavam com uma das melhores formações acessíveis à sua classe social.
Uma das conseqüências da veneração às tecnologias de ponta, na construção, foi a de abrir um fosso profissional entre arquitetos e engenheiros de um lado, e os trabalhadores manuais do outro. As corporações profissionais de arquitetura e engenharia se beneficiaram enormemente da maior complexidade no emprego dessas tecnologias, em parte pela fatia de mercado abocanhada — aumentando a participação de seus membros na construção de casas unifamiliares, por exemplo —, e em parte pela conseqüente desqualificação dos mestres-de-obras e pedreiros. Do momento que um sistema construtivo se torna tão complexo a ponto de exigir especificações detalhadas da parte de um profissional de “nível superior”, essas especificações substituem o know-how do mestre-de-obras. A construção civil, transformada em indústria, deixa então de valorizar um mestre ou um pedreiro experiente, e passa a contratar por um valor mais baixo os incapazes que vemos por aí.
Mais grave, do ponto de vista do patrimônio histórico, é que a maioria dos trabalhadores manuais da construção civil atualmente só sabe fazer uma fôrma para concreto e assentar — sem a menor noção de prumo ou nível — um tijolinho baiano. O conhecimento das técnicas tradicionais torna-se privilégio de uns poucos especialistas, em sua maioria arquitetos e restauradores com formação superior. Resultado: a manutenção e a restauração de estruturas tradicionais torna-se uma atividade mais cara do que a construção segundo o arremedo de tecnologia moderna que está ao alcance dos trabalhadores de hoje. Essa situação contribui para uma degradação ainda mais acelerada do patrimônio histórico tradicional.
Responder
Comentários recentes
1 dia 10 horas atrás
1 semana 1 dia atrás
2 semanas 11 horas atrás
2 semanas 2 dias atrás
4 semanas 6 horas atrás
4 semanas 2 dias atrás
5 semanas 48 minutos atrás
5 semanas 2 dias atrás
5 semanas 4 dias atrás
15 semanas 5 dias atrás