Responder a este comentário

Conflito de interesses: patrocinadores da arquitetura modernista

É sempre suspeito quando a indústria farmacêutica patrocina pesquisas, médicos, ou eventos. E quando uma fundação que promove uma ideologia da arquitetura modernista, industrializada e efêmera, é patrocinada por empresas que atuam na industrialização e na obsolescência programada dos materiais?

Fiquei encucado com isso quando soube da transferência do Docomomo Internacional para Barcelona. Enquanto que ONGs culturais costumam ser patrocinadas por todo tipo de grandes empresas (petrolíferas, bancos, etc.), a Fundação Mies van der Rohe, que abrigará o Docomomo daqui para a frente, tem a peculiaridade de ser patrocinada exclusivamente por empresas que têm como premissa de suas atividades a industrialização e a efemeridade da arquitetura.

A presidência do Docomomo Internacional (Comitê Internacional para a Documentação e Conservação de sítios do Movimento Moderno, uma ONG que organiza, entre outros, conferências e campanhas pela preservação do patrimônio arquitetônico modernista) anunciou sua mudança de Paris para Barcelona, efetiva em 1º de janeiro de 2010, sem dar maiores explicações, segundo mensagem retransmitida pelo Docomomo Brasília. O Docomomo Internacional está atualmente hospedado pela Cité de l’Architecture et du Patrimoine, um órgão do Ministério da Cultura francês sediado no palácio Art Déco que abrigou parte da exposição universal de 1937. A partir de 2010 ele será abrigado pela Fundació Mies van der Rohe.

A Fundação Mies é uma ONG peculiar, dirigida por um conselho de entidades públicas e privadas: prefeitura de Barcelona, Ministério da Habitação, Colégio de Arquitetos da Catalunha, Escola Técnica de Arquitetura de Barcelona, Museu de Arte Moderna de Nova York, entre outras. Ela foi criada em 1983 com um objetivo pontual: coordenar a reconstrução do Pavilhão da Alemanha (foto), projetado em 1929 pelo famoso arquiteto modernista Ludwig Mies van der Rohe para a feira internacional de Barcelona. Depois, continuou atuando na organização de eventos ligados à arquitetura do Movimento Moderno.

Só essa campanha de reconstrução já merece um estudo aprofundado: qualquer tentativa de reconstruir o Palácio Monroe hoje seria rejeitada com base no argumento historicista da “falta de autenticidade”. Por outro lado, até onde eu saiba ninguém protesta contra a reconstrução de uma obra modernista como o Pavilhão de Mies.

Patrocinadores da arquitetura modernista

O que me interessa hoje, porém, não é a reconstrução do pavilhão e sim a lista dos patrocinadores da Fundação Mies van der Rohe. É muito comum e proveitoso que instituições culturais sejam patrocinadas por grandes empresas; no Brasil, Petrobras, Banco do Brasil e Caixa têm se destacado no apoio a projetos artísticos, por exemplo. É mais raro ver uma instituição ser patrocinada apenas por empresas de um ramo de atividade análogo ao seu. Seria como se uma organização de farmacêuticos fosse patrocinada integralmente por laboratórios produtores de remédios.

De fato, no caso da Fundação Mies, os quatro patrocinadores citados no site são empresas ligadas ao setor da construção civil. Desses quatro, a Roca destoa, pois produz louças sanitárias e sistemas afins. Vejamos o que fazem as outras três:

  • Mitsubishi Electric, cujas atividades vão muito além da construção, produz entre outros equipamentos de ar-condicionado, aos quais a arquitetura modernista, com suas peles de vidro de altíssimo ganho térmico, deve sua existência e viabilidade;
  • Sistemas Bal produz divisórias industrializadas, as quais, junto com o ar-condicionado, permitem que se reproduza o paradigma modernista da “planta livre” em grandes lajes uniformes;
  • finalmente, a Würth produz tantos sistemas e cacarecos industrializados que é até difícil selecionar os mais relevantes: vão desde carpetes e mantas até espaçadores, peças de fixação, aditivos e selantes; todos partes integrantes de uma certa idéia de arquitetura altamente industrializada e “moderna”.

Ou seja, enquanto os produtos da Roca são independentes da ideologia arquitetônica (não passaria pela cabeça de ninguém, por mais tradicionalista que fosse, fazer um edifício sem banheiro), os das três outras empresas dependem de uma concepção da arquitetura que valorize a industrialização. Elas são, portanto, diretamente interessadas em promover arquitetura modernista — entendendo-se aí não apenas a estética, mas todo o paradigma de uma arquitetura “do seu tempo” e, portanto, efêmera, tornada rapidamente obsoleta e disfuncional pelos fatores conjugados do desgaste precoce dos materiais, da obsolescência da sua tecnologia, e da moda estética passageira.

Para mim isso tem toda cara de conflito de interesses.

Responder

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Por favor responda ao desafio abaixo. Isto é necessário para evitar spam gerado por bots.
Image CAPTCHA
Enter the characters shown in the image.
To prevent automated spam submissions leave this field empty.

 

Feed RSS: