Urbanismo e urbanidade II

A vítima... digo, o tema de hoje é a nova Casa da Música no Porto, de autoria do escritório holandês OMA (em respeito à postura do escritório de que suas obras são resultado da cooperação entre todos os membros, não vou falar no Rem Koolhaas como 'autor' do projeto). Quatro gafes básicas arruinam esse projeto que, do ponto de vista estético, até que não é mau.

1. Situação

 {mosimage}

 Casa da música
Fonte: Archined

A localização da casa da música rompe a leitura da praça circular: basta que em um dos quarteirões lindeiros o perímetro do círculo não seja seguido, para anular o seu efeito espacial. Ao contrário das formas poligonais, a forma circular não admite compromissos e irregularidades que lhe confiram uma ênfase pontual. Na verdade, uma praça circular não é de modo algum o local indicado para se implantar um edifício monumental, ainda que ele não interrompesse o perímetro. A casa da música compete com o monumento situado no centro da praça, único foco possível de atenção na forma circular. Aliás, preste atenção no memorial do arquiteto: "já que esta parte do Porto ainda estava 'intacta', OMA decidiu não articular a nova orquestra como segmento da parede circular (…)" (do site de OMA). Ou seja: já que esta parte da cidade nunca tinha sido avacalhada por um arquiteto modernista antes, por que perder a oportunidade de avacalhar agora?

2. Implantação

A distância do meio-fio de qualquer uma das quatro ruas que contornam o edifício até a fachada mais próxima é pelo menos três vezes a largura da rua. Em geral, quando um edifício importante está afastado da via de circulação que o serve, é para criar uma praça pública importante, desenhada como uma praça pública importante, e que funciona como uma praça pública importante: Praça de São Pedro, Pátio do Louvre, e o gramado do Capitólio americano são exemplos dessa prática. O problema é que com a Casa da Música, a praça já existia e foi enfraquecida por esse gesto de projeto. Além disso, nenhum dos espaços à volta do edifício pode ser considerado uma "praça" de verdade, porque o que temos não é um marco cívico organizando um espaço público e sim um objeto flutuando no meio de uma plataforma de concreto. Ou, como diz Zucker em Town and Square, "apenas transformou-se o vazio à volta do edifício numa espécie de bandeja ou prato de servir, sobre o qual o edifício é exposto."

 {mosimage}

 Imagem do tour virtual da Casa da Música
Fonte: New York Times

3. A entrada

Em qual dos enorme e transparentes panos de vidro fica a entrada do edifício? A resposta, em se tratando de arquitetura genuinamente, inflexivelmente modernista, não podia ser mais óbvia: nenhum. A entrada principal é um minúsculo buraquinho na parede menos transparente de todas. Repare que Theo van Doesburg estava enganado ao afirmar que a arquitetura moderna tornou frente e fundos equivalentes. Aqui, a distinção entre frente e fundos é claríssima: a frente é a que parece fundos, e os fundos são os que parecem a frente. Naturalmente, a entrada sequer está virada para a praça; ela dá para uma das ruas laterais.

4. Uma brecha de decoro

Este artigo cita uma resenha do New York Times indicando que a Casa da Música começou como um projeto residencial, mais tarde adaptado para o auditório. O que há de errado com isso? Um edifício público não é como uma casa grande para o público? Na verdade, não. A produção de um edifício público decorre de um propósito totalmente diferente da de uma residência ou de um edifício comercial privado. A arquitetura particular deve se conformar às dimensões do lote, ao zoneamento, e à riqueza do proprietário. Se este puder comprar um lote enorme para instalar um pedregulho de concreto, melhor para ele, mas a regra continua valendo. Por isso mesmo, os edifícios modernistas mais bem integrados no seu contexto costumam ser as residências. Já a arquitetura pública, ou pelo menos seus edifícios mais emblemáticos, pede a despesa e a qualidade estética mais soberbas que a cidade puder bancar, em respeito ao seu status político e econômico. Mais do que isso, um edifício público não pode ser simplesmente uma casa mais decorada: ele precisa ser um edifício do qual a população possa se orgulhar, vender cartões-postais, um espaço convidativo situado num lugar público importante. Como vimos, o edifício de OMA não está sequer virado para a praça e sim para uma rua lateral. É a lógica da residência privada aplicada num programa que merecia bem mais do que isso.

 

Feed RSS: