"Mapa Turgot de Paris KU 06" por Louis Bretez (16..–1738) - Kyoto University Library. Licensed under Public Domain via Wikimedia Commons

Revolução Francesa e Patrimônio Histórico

Sustentabilidade e patrimônio cultural
Pesquisa, projeto, reforma, restauro e recebimento de imóveis

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Hoje, 14 de julho, é a data nacional da França, quando se celebra o início da Revolução Francesa representado pela “Queda da Bastilha”, em 1789. Apesar de ter sido demolida naquele mesmo ano, ou melhor, justamente por ter sido demolida, a Bastilha fez parte de um conjunto de monumentos perdidos que inspirou as primeiras iniciativas de proteção ao patrimônio cultural. Além disso, a sua vizinhança ilustra alguns conceitos universais de urbanismo.

A palavra Bastilha vem do francês antigo e significa “cidadela fortificada”. O monumento em questão era um grande castelo que defendia uma das portas na parte Leste da muralha de Paris construída a mando do Rei da França Carlos V, a partir de 1370. Quando começou a funcionar, em 1386, tinha um inovador desenho abaulado com oito torres. No entanto, rapidamente tornou-se obsoleta como fortaleza por dois motivos: a introdução dos canhões no campo de batalha, logo no início do século XV, e o crescimento da cidade, que ultrapassou a linha das muralhas. Por isso, passou a ser usada como prisão desde o final da Guerra de Cem Anos (13371453). O fato de muitas vezes receber presos políticos, e também de abrigar um arsenal com armas e munições, tornaram-na um objetivo importante quando as milícias revolucionárias tomaram as ruas num ímpeto, no dia 14 de julho de 1789.

A Bastilha e sua vizinhança no Mapa de Paris

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Mapa Turgot de Paris por Louis Bretez (16..–1738) — File. Licença de domínio público via Wikimedia Commons.

O desenho da Bastilha reproduzido aqui faz parte do Mapa Turgot, uma vista de Paris elaborada entre 1734 e 1739 a pedido do Preposto dos Mercadores — espécie de prefeito de Paris, à época. O artista Louis Bretez esquadrinhou as ruas e as casas da cidade durante dois anos e demorou outros três para elaborar os desenhos, transferidos para chapas de gravura por Claude Lucas. Ambos eram membros das Academias reais, formando parte de uma elite artística à disposição da administração da Coroa para tarefas como essa.

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A prancha onde foi representada a Bastilha, uma das vinte folhas que compõem o mapa da cidade como um todo, também mostra a Ilha Saint-Louis e a Place Royale, atual Place des Vosges. A ilha, atual endereço chique em Paris, começou a ser urbanizada cerca de um século antes, com a participação de Louis Le Vau, principal arquiteto de Luís XIV e que era também empreiteiro. Essa dupla atividade do arquiteto levantou pela primeira vez, no domínio da arquitetura, o conceito de conflito de interesse — o ministro de finanças do rei, Jean-Baptiste Colbert, acusava o arquiteto de não cuidar da qualidade das construções reais por estar acostumado a edificar imóveis especulativos de baixa qualidade.

Muitos dos edifícios ainda hoje existentes na Ilha Saint-Louis foram incorporados por Le Vau e seus contemporâneos, o que mostra que a qualidade construtiva não era tão baixa assim. Para edificar na ilha pantanosa, os empreiteiros primeiro tiveram que consolidar o terreno, cravando milhares de estacas de madeira no solo — mesma solução adotada nas fundações dos edifícios de Veneza, e prática ainda hoje comum em terrenos alagadiços, só que usando estacas de concreto.

A Place Royale teve seu nome alterado para Place des Vosges na época da Revolução Francesa. Foi originalmente planejada pelo Rei Henrique IV, no início do século XVII, e projetada por Jean Androuet du Cerceau e Clément Métezeau. Originalmente, o rei tinha previsto instalar na praça manufaturas e comércios de tecidos — a França era o maior exportador de tecidos na Europa, antes de ser ultrapassada pelo Reino Unido no século XVIII. No entanto, a localização do conjunto e a qualidade do projeto atraíram membros da nobreza e da alta burguesia, que, em vez de construírem fábricas, edificaram palacetes para si próprios — incluindo o próprio Primeiro Ministro do rei, Maximilien de Béthune, duque de Sully.

Foi um caso clássico do que os urbanistas conhecem como gentrificação, anglicismo derivado de gentry (aristocracia). A palavra indica uma modificação na composição socioeconômica de um bairro da cidade, pela qual a área, anteriormente ocupada por ou prevista para abrigar grupos sociais e atividades econômicas de baixa renda, torna-se atraente para camadas mais altas da sociedade. Estas, por sua vez, compram os imóveis ou fazem com que o Estado promova desapropriações forçadas, tomando a área para si e construindo moradias ou empreendimentos de alta renda.

A Destruição da Bastilha e o Patrimônio Cultural

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No dia seguinte à tomada da Bastilha pelos revolucionários, um empreiteiro começou a demolir o edifício por conta própria, vendendo as pedras para a construção da atual Ponte da Concorde, em Paris, e esculpindo maquetes da Bastilha em algumas, como memorial. Essa fortaleza foi, portanto, o primeiro de vários monumentos franceses destruídos ou depredados por simbolizarem o absolutismo — diversos edifícios religiosos por toda a França tiveram o mesmo destino, e alguns dos mais notáveis, como a Catedral Notre-Dame de Paris, escaparam por pouco. A intensidade da destruição foi tamanha que já em 1791, uma comissão legislativa propôs a criação de um museu com vestígios de edifícios demolidos por motivos ideológicos, dando início à primeira iniciativa governamental de proteção ao patrimônio cultural no mundo. O sucesso desse Museu dos Monumentos, dirigido pelo jovem medievalista Alexandre Lenoir, foi tamanho que já em 1793 se discutia a proteção a edifícios inteiros, em vez de apenas recolher pedaços das suas ruínas. O primeiro conjunto arquitetônico e artístico a receber proteção antes de ser demolido foi o da Abadia de São Dionísio, ao norte de Paris. Os túmulos dos reis da França, abrigados nessa igreja, já haviam sido vandalizados, mas com a proteção foi possível salvar o edifício e restaurar os sarcófagos reais.

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Ainda durante a Revolução, um jovem arquiteto e político, Antoine-Chrysosthome Quatremère de Quincy, protestou contra o saque de obras de arte durante a invasão da Itália pelo exército revolucionário francês, comandado por Napoleão. Essas obras estavam sendo removidas de museus e palácios italianos, sobretudo de Roma, para serem enviadas ao Louvre, o antigo palácio real que havia sido transformado em Museu Nacional a partir de 1793. Com isso, introduziu-se o debate sobre outro conceito fundamental à proteção do patrimônio cultural: a importância de se preservar o entorno das obras, como elemento essencial para se compreender a sua história e o seu valor. Ainda levaria várias décadas para esse conceito começar a ser assimilado como parte da política de preservação do patrimônio arquitetônico, e foi só no final do século XX que ele começou a ser aplicado também às obras de arte e aos artefatos arqueológicos, com a devolução de diversos objetos dos acervos de museus da Europa ocidental a seus países de origem — principalmente ao Egito.

A Revolução Francesa não deu ao mundo apenas os conceitos de direitos humanos e de igualdade perante a lei, portanto: também fomentou as primeiras políticas oficiais de proteção ao patrimônio cultural, justamente por acreditar na importância histórica e artística de vestígios de um passado que estava sendo apagado pelo progresso político. Deixou-nos, assim, a lição de que são os próprios partidários do progresso aqueles que mais devem reconhecer a importância do passado que está se perdendo. Afinal, o que seria de Paris se os grandes monumentos da Idade Média e do Absolutismo — Notre-Dame, Louvre — e mesmo os edifícios privados da Ilha Saint-Louis tivessem sido destruídos em nome da Revolução e da modernização?

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