Lago Paranoá

Resposta ao Artigo “Presepadas da Terracap I”

O texto a seguir foi redigido pelos meus colegas professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, Neusa Cavalcante e Eliel Américo Santana, em resposta ao meu post anterior neste blog, “Presepadas da Terracap I: Expansão do Setor Sudoeste”. Transcrevo na íntegra.

*    *    *

Não é preciso ser doutor no assunto para perceber que a expansão dos setores Sudoeste e Noroeste não significa o aumento de habitações populares. Seria desnecessário enumerar os exemplos de políticas paternalistas, voltadas à construção de casas para as classes menos favorecidas que, beneficiando outros segmentos da população, não atingiram suas metas. Então a quem interessa essa expansão?

É sabido que o impacto dessa ação provoca a mudança na qualidade de vida da cidade, que não está preparada para atender a uma grande elasticidade da demanda. Além disso, os vazios urbanos de Brasília têm como vocação não somente a criação de áreas de lazer descobertas, que enfatizem seu caráter de cidade-parque, como a multiplicação de equipamentos voltados à qualificação cultural e intelectual da cidade-capital, conforme previsto por seu inventor Dr. Lucio Costa. Se a expansão desses setores contribui para piorar a qualidade da vida urbana e se os menos favorecidos não se beneficiarão dela, fica a pergunta: a quem interessa o adensamento do Plano Piloto e das cidades satélites?

Sabe-se ainda que a construção de habitações deve ser seguida por uma efetiva política pública de geração de emprego e renda. Como a construção de grandes indústrias e de empreendimentos absorvedores de mão-de-obra parecem não fazer parte da vocação de Brasília, e como a tendência a médio e longo prazo é de enxugamento da máquina pública, a quem interessa o adensamento?

Recentemente, junto com as notícias de repressão aos traficantes de drogas, fomos informados que a favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, exibe o maior índice de tuberculose do Brasil, sendo o adensamento sua principal causa. Então se o adensamento não interessa aos defensores do meio ambiente, da sustentabilidade econômica da cidade e da saúde pública de seus habitantes, volta-se à questão: a quem ele poderia interessar?

Será que na medida em que abre espaço para novos projetos, essa expansão interessaria aos arquitetos? A qualidade duvidosa da maioria das obras produzidas recentemente pela especulação imobiliária em Brasília impede de acreditar que o volume de construções, por si só, seja capaz de empolgar a classe. Os novos projetos, baseados em tecnologia convencional e pouca ou nenhuma criatividade, que podem até garantir a sobrevivência de poucos arquitetos, não configuram motivo de orgulho profissional. E mais uma vez fica a questão: a quem interessa o adensamento?

Tudo parece apontar em direção à especulação imobiliária. O crescente número de propagandas na TV aberta voltadas à venda de imóveis mostra um setor altamente capitalizado e, portanto, com grande sede de expansão. Parece claro que o motor por trás do adensamento das cidades em geral, e de Brasília em particular, é a necessidade de expansão do setor imobiliário para seu próprio usufruto, ou seja, para a multiplicação de seu próprio capital. E isso não é exclusividade de Brasília: em Belém, por exemplo, existem servidores arquitetos ameaçados de morte por não aprovarem determinados projetos que ferem índices os urbanísticos locais.

Qual o risco de ceder aos desejos expansionistas do setor imobiliário? Melhor dizendo, quais as consequências de se legitimar os interesses das incorporadoras? Além de ferir o tombamento e acumular perdas referentes à qualidade de vida, restam os riscos financeiros. Ainda está na nossa memória o estopim da crise norte americana iniciada em 2001. A grande massa de capital circulante e a queda dos juros aumentaram a demanda por imóveis, o que provocou uma especulação desenfreada, propiciada pelo grande volume de empréstimos, principalmente para clientes de classe média – os chamados clientes subprime. Embora considerado de alto risco, esse tipo de empréstimo, devido à maior probabilidade de inadimplência, oferece uma alta taxa de retorno aos bancos. Em 2006, com o boom da construção civil, o preço dos imóveis caiu, os juros aumentaram e a oferta de habitações superou a procura, o que resultou em uma enorme crise imobiliária.

É impressionante que dos anos de debates na academia até a imagem de satélite da capital federal, lançada pela NASA – autoridade em ciência e pesquisa, acima de qualquer suspeita, com a designação de “o maior exemplo de urbanismo do século XX”, persista a dificuldade de ver Brasília como diferente, como um desenho digno e de pudor inabalável. Foi sobretudo por essa diferença, que apesar das agressões de todas as instâncias, principalmente às promovidas pelo mercado imobiliário e seus representantes, atualmente instalados nas instituições de ensino superior, que o desenho de Lucio Costa resiste. Não por ser um desenho autoritário, mas sim por sua dignidade e força. Poucos projetos no mundo possuem essa característica.

Na recente película “La Piel que habito”, do cineasta Pedro Almodóvar, a mensagem mais importante, por trás de todo o suspense e surrealismo, é até que ponto pode-se transformar a “essência” e o “espírito”, será que a pele, por si só, é capaz disso? Almodóvar um dos últimos grandes diretores, constrói uma bela história, inventa e experimenta, e nos surpreende como todo grande artista e gênio. Seria tão bom se os arquitetos voltassem a ter essa prática e não ficassem apenas nas críticas infundadas e no intelectualismo improdutivo. Não é qualquer pele que veste a força desse desenho. Não podemos vestir Brasília com a falta de qualidade flagrante que a especulação imobiliária imprimiu em outras cidades, cidades iguais, sem espírito e sem força. Espírito esse presente no centro de Paris, na quadrícula espanhola de Cerdá, na bela paisagem do Parque do Flamengo, presenteado ao Rio de Janeiro por Afonso Reidy e Burle Marx; e, por fim, o espírito das superquadras. Como diria o grande teórico argentino Adrián Gorelik: “Brasília não teve seu Pruitt-Igoe, aquele conjunto de Misuro Yamasaki que foi dinamitado nos Estados Unidos pelos níveis de deterioração social e que tornou as críticas de Jencks célebre, datando na explosão a partida de morte do modernismo. Ou seja, não houve em Brasília necessidade de dinamitar nenhuma superquadra porque elas se converteram em lugares de altíssima qualidade de vida com um grande sentido de pertencimento desenvolvido; como em poucos lugares, em Brasília deveria ser começado um estudo ao contrário, perguntando-se do êxito das premissas modernistas na moradia coletiva”.

Como se vê o assunto é complexo e não pode ser tratado na base de um, já fora de moda, ódio ao Plano Piloto, e muito menos com deboche. O Dr. Lucio Costa merece todo o respeito como arquiteto competente, consciente e ligado às questões candentes do seu tempo. Assim como sua filha, Maria Elisa Costa, por ele encarregada de tratar de vários assuntos referentes à Brasília. E, por mais que não sejamos de qualquer religião ou credo, devemos respeito àqueles que seguem e cultivam os ensinamentos da Sagrada Escritura ou àqueles que professam o Espiritismo; e ainda às mães de santo, que fazem parte de nossa cultura e, como tal, são dignamente representadas nas alas de baianas de nossas escolas de samba.

Compreendido a que serve o adensamento é o caso de se perguntar a que serve um tipo de produção que, partindo de um membro do meio acadêmico, se vale da ironia, do desrespeito e da crítica não abalizada para defender seus argumentos? Nas entrelinhas de uma possível crítica a uma instituição ou governo, o que resta é a legitimação do adensamento ou o fortalecimento das mazelas da especulação contra uma cidade tombada por sua importância como símbolo do modernismo brasileiro. 

Comentar