Pedra Fundamental, Planaltina, Brasília, DF, Brasil, 17/4/2015 Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília

A Pedra Fundamental de Brasília

Pouca gente fora da cidade de Planaltina, no Distrito Federal, sabe que hoje, além de se comemorar a proclamação da Independência, faz aniversário outro importante marco da história do Brasil: o lançamento da Pedra Fundamental da Nova Capital do Brasil. As celebrações da Independência nacional sempre ofuscam o aniversário desse marco da capital federal, erguido no dia 7 de setembro de 1922 pela comitiva de trabalhadores ferroviários liderada pelo Engenheiro Balduíno de Almeida, responsável também pelo projeto do monumento. No entanto, a importância do lançamento da Pedra Fundamental no dia do centenário da Independência vai além do simples simbolismo de um ideal “mudancista” que ainda levaria quase quatro décadas para se concretizar: o evento foi aproveitado para reabrir a discussão sobre o sítio exato onde deveria ser implantada a nova capital, e contribuiu para um ímpeto de desenvolvimento na infraestrutura e na arquitetura cívica de Planaltina nos anos seguintes.

O texto a seguir foi extraído, com correções e atualizações, do Inventário do Setor Tradicional de Planaltina, elaborado pela Ábaco e editado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2013.

O Centenário da Independência e as Iniciativas Mudancistas

Em 24 de fevereiro de 1891 o artigo 3º da Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil determinou: “fica pertencente á União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400  quilômetros quadrados que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura capital federal”. O projeto de emenda constitucional é de autoria do deputado catarinense Lauro Müller.

Em 1892, o presidente Floriano Peixoto forma a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil (Missão Cruls) para demarcar a área de 14.400  km² para a futura capital. Em junho de 1893, é publicado no Diário Oficial da União o primeiro relatório parcial da Missão Cruls, incluindo demarcação do perímetro do futuro Distrito Federal. Um ano depois parte a novamente a Missão Cruls (agora como Comissão de Estudos da Nova Capital da União), com o objetivo de aprofundar os estudos acerca da área demarcada e escolher o local da cidade dentro do quadrilátero definido. O trabalho é interrompido por falta de verbas, não sendo determinada a localização da futura capital.1

Após a demarcação do perímetro da Cruls, há um período de aproximadamente trinta anos sem grandes iniciativas no que tange à transferência da capital brasileira para o interior do País.2 Finalmente, em 12 de julho de 1921, é realizada uma reunião extraordinária do Conselho Municipal de Planaltina, estando presentes: Salviano Monteiro Guimarães, Deodato Amaral Luly, José Deodato Gonçalves, Tiburcio Gomes Rabello e João Baptista da Cunha. A pauta da reunião é a comunicação da “innauguração official da estrada de automóveis de Ypameri a Formosa”,3 em 6 de dezembro de 1921, ligando a Vila de Planaltina à Estrada de Ferro de Goiás, em construção na altura de Ipameri. A expedição que em 7 de setembro do ano seguinte inaugura a Pedra Fundamental no Morro do Centenário só se torna possível devido à inauguração dessa estrada de rodagem.

A providência administrativa decisiva para a implantação do marco da futura capital é o projeto de lei nº 680-A, dos deputados goianos Americano do Brasil e Rodrigues Machado, que propunha:

(…) Considerando que a Constituição Federal em um de seus artigos de maior alcance político determina a mudança da Capital Federal para o planalto central; Considerando que essa mudança é da maior urgência e necessidade para a tranquilidade e estreitamento da união nacional; considerando que já está demarcada a área necessária à futura capital e que não devemos deixar passar o centenário de nossa independência sem darmos início à execução dessa aspiração nacional; O Congresso Nacional resolve: Art.º 1º — O Governo lançará a pedra fundamental da Capital Federal no planalto central ao meio dia de 7 de setembro de 1922 (…)4

Em 18 de janeiro de 1922 o projeto recebe o apoio do presidente Epitácio Pessoa, sendo reeditado na forma de Decreto (n. 4.494 ), determinando o lançamento da Pedra Fundamental da Capital Federal no dia 7 de setembro, em virtude ao centenário da Independência.5 No dia 27 de agosto de 1922 o Engenheiro Balduino Ernesto de Almeida, diretor da Estrada de Ferro de Goyaz, recebe em Araguari um telegrama do inspetor geral das Estradas de Ferro, Palhano de Jesus, transmitindo-lhe ordem do Ministro da Viação e Obras, José Pires do Rio, atribuindo-lhe a incumbência de implantar o marco da nova capital no quadrilátero demarcado pela Comissão Cruls: “Alli proximamente no logar mais preconizado pela antiga commissão de demarcação Planalto fareis lançar pedra fundamental e fixar marco dia 7 Setembro no meio dia”.6

O arquiteto Ramos de Azevedo, diretor e autor do projeto original do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (atual edifício da Pinacoteca de São Paulo), envia uma carta datada de 1º de setembro de 1922 ao Engenheiro Balduino com o croqui da placa comemorativa a ser colocada em uma das faces da pedra fundamental, dizendo:

Conforme comuniquei ao mesmo Snr. Ministro, não era possível executar o trabalho de estudo e fusão da dita placa em prazo tão exiguo e hontem tive a ordem de enviar-lhe o desenho, ficando para breve expedição o objecto completo, que poderá ser montado posteriormente a 7 de setembro.7

O arquiteto anexa também ao documento duas propostas de projeto para o marco, enfatizando que seriam somente sugestões. Não foram encontrados os desenhos mencionados na carta.

A Construção da Pedra Fundamental

A Caravana

Em 1º de setembro de 1922 partem de Araguari:

  • Eng. Balduíno Ernersto de Almeida;
  • Dr. Álvaro Cardoso de Mello;
  • Dr. Edgard Peixoto Guimarães;
  • 1 mestre de obras;
  • 2 pedreiros;
  • 2 serventes;
  • 1 despenseiro;
  • 1 cozinheiro;
  • 1 ajudante de cozinha;
  • 1 copeiro;
  • 1 criado;
  • 1 fotógrafo (chamado Plínio);8
  • 17 condutores de automóveis e caminhões.

A comissão parte em um trem especial até Ipameri com todo o contingente, incluindo os veículos para prosseguir viagem até Planaltina: 9 automóveis Ford-bigode9 e 6 caminhões Ford. Às 18 horas do mesmo dia a caravana chega a Ipameri.

No dia seguinte, a Comissão parte de Ipameri às 5 da manhã, após ter passado boa parte da noite anterior transferindo as cargas dos trens aos automóveis e caminhões. As distâncias são percorridas lentamente, pois “em vista das grandes rampas que se tinham de vencer, os caminhões estacavam de momento a momento”.10 Por esse motivo, logo após ter passado Inajá (aonde pararam para almoçar), os caminhões são puxados diversas vezes por bois de um fornecedor de lenha à Estrada de Ferro de Goiás. Devido à dificuldade de locomoção, Dr Balduino toma uma decisão:

(…) encontrei, entre Ypameri e Cristallina, dois automóveis que vinham de Mestre d’Armas. Eram 16 horas. Tendo partido às 5 de Ypameri, em pouco mais de 10 horas, tinha feito apenas 40 km de estrada. Achei prudente fretar mais dois automóveis, com os quais distribuí as cargas.11

No final do dia, a caravana conseguiu alcançar o pouso Águas Emendadas, às 21 horas, após ter percorrido um total de 76 quilômetros.

No terceiro dia de expedição, a Comissão parte às 6 horas e percorre 84 quilômetros até Cristalina. De lá em diante, a frota de automóveis se desvencilha do resto da caravana e chega às 21 horas do mesmo dia em Planaltina com o intuito de adiantar os preparativos para o assentamento do marco.12 Na cidade são recebidos festivamente e ficam hospedados no imóvel atualmente ocupado pelo Hotel O Casarão, segundo relato oral da atual proprietária deste. Tal versão parece corroborada por fotografia da época que mostra o corpo expedicionário reunido diante da casa.

Comitiva liderada pelo Engenheiro Balduino de Almeida em frente ao atual Hotel O Casarão, em Planaltina.

No dia 4 de setembro, o Engenheiro Balduíno examina a região para definir o lugar do assentamento do marco. Visita a área entre o Ribeirão Torto e o Bananal, o local do acampamento da Missão Cruls e a região do Rio Parnaná, mas não considera nenhuma delas adequadas à construção da futura capital. Dr. Balduino denomina a colina próxima à Villa de Planaltina de “Serra da Independência” e seus dois pontos culminantes de “Morro 7 de Setembro” (atualmente o Morro da Capelinha) e “Morro do Centenário”, escolhendo esse último para a colocação da Pedra Fundamental da futura capital.

Em 5 de setembro chegam a Planaltina pela manhã os caminhões que tinham ficado para trás com o material para a implantação da Pedra Fundamental. Dirigem-se diretamente para o Morro do Centenário. Para alcançar o ponto mais favorável ao assentamento da pedra fundamental, foi necessária a abertura de cerca de 12 km de estrada. Finalmente, “Às 17 horas, todo o material foi descarregado no Morro do Centenário. Houve uma sensação geral de allivio”.13 Na véspera da cerimônia inicia-se a montagem do obelisco com a colocação da primeira pedra às 15h.

A Escolha do Local

Inauguração da Pedra Fundamental da Futura Capital do Brasil, em Planaltina, 7 de setembro de 1922.

Às 10 horas do dia 7 de setembro de 1922 é terminada a montagem do monumento. Às 12 horas inicia-se a cerimônia de inauguração. Quando o sol entra no meridiano, o Engenheiro Balduino começa a içar a Bandeira Nacional. O Hino Nacional é executado pela Bandinha de Planaltina acompanhada dos clarins do Sexto Batalhão de Caçadores de Ipameri.

Apesar do ofício enviado por Ramos de Azevedo ao Engenheiro Balduíno, em 1º de setembro, relatando a impossibilidade da entrega da placa comemorativa em tempo para a cerimônia de inauguração do marco, em um dos textos do processo de tombamento da Pedra Fundamental, há menção da placa durante a cerimônia: “(…) duas horas antes da solenidade o obelisco era concluído, inclusive com a placa de bronze afixada na face oeste”.14 No livro “A mudança da Capital”, Adirson Vasconcelos confirma a fundição da placa antes da data da inauguração do marco, afirmando inclusive que ela teria chegado em Araguari às 10h30 do dia 1º de setembro.15

Estão presentes à cerimônia uma centena de pessoas da região que foram ao local em cavalhada. Discursam durante a cerimônia: Eng. Balduíno, representando o Governo Federal, Arthur Póvoa, em nome do Cel. Eugênio Jardim, governador em exercício de Goiás, Hugo Lobo, Intendente Municipal de Formosa, e o deputado estadual Evangelino Meireles, representante do Congresso Goiano e do deputado Americano do Brasil.16 O outro autor do projeto 680-A de 7 de dezembro de 1921, deputado federal Rodrigues Machado, é representado pelo jornalista Gelmires Reis, de Santa Luzia (atual Luziânia).17 O orador deputado Evangelino, em seu discurso, evoca ideais mudancistas:

Ei-nos festejando, pela centesima vez, a data da nossa existencia como Nação livre e constituída (…) e é hoje também que estámos dando começo á edificação da futura Capital do paiz, no coração de Goyaz (…) veremos aproveitado todo o interior gigantesco da Patria, sendo a ceremonia deste momento o primeiro passo para a completa integração da unidade nacional.18

A ata do acontecimento é ditada pelo Eng. Balduíno e escrita pelo major Adelino Guaycurus Piranema e pelos engenheiros Alvaro Cardoso de Mello e Edgard Peixoto Guimarães, auxiliares de Balduino na Estrada de Ferro em Araguari. O documento é assinado por 93 pessoas.19

O Retorno da Caravana

Em que pese o lema “Marcha para o Oeste”, a ditadura Vargas interrompeu o processo de mudança da capital da República. Apenas na Constituição de 1946 é que se restabeleceu a determinação de transferência da capital para o Planalto Central.[^1] Sucederam-se então as missões exploratórias e os estudos técnicos em ritmo mais acelerado do que antes. Além das mais conhecidas missões chefiadas pelos militares Djalma Polli Coelho (1948) e José Pessoa (1955), o IBGE, criado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, enviou duas expedições ao Planalto Central.20

Em 1945, sob o governo Café Filho, a comissão chefiada pelo Marechal José Pessoa entregou a recomendação definitiva de localização da nova capital. Após muitas tergiversações e propostas de sítios alternativos estendendo-se de Cavalcante a Uberaba devido a interesses políticos conflitantes,21 retornava-se ao sítio preferido pela comissão Cruls, próximo ao centro do quadrilátero de 1891, entre o ribeirão Torto e o córrego Vicente Pires.

Durante esse período final de preparativos para a mudança da capital, a região Centro-Oeste experimentava, mais tardiamente do que no restante do País, um importante êxodo rural. Passou de região menos urbanizada em 1940 à terceira mais urbanizada em 1960,22 e isso sem um significativo crescimento industrial:

No Centro-Oeste, o acelerado crescimento das cidades se deu em função das demandas geradas pela economia agrária em rápida expansão […] Em Goiânia, a população saltou de 14,9 mil para 132,6 mil (aumento de 709%), e em Anápolis, de 8,1 mil para 48,9 mil (aumento de 504%). Os demais centros urbanos de alguma importância, mas de diminuta população em 1940, começaram a se consolidar como pólos regionais, como Catalão, Jataí, Rio Verde e Itumbiara.23

Note-se que as localidades citadas acima ou eram acessíveis pela ferrovia, ou situavam-se próximas a São Paulo, não mencionando o autor crescimento no Planalto Central. Tal aumento populacional viria apenas com a construção de Brasília, antes da qual o município de Planaltina contava com pouco mais de sete mil habitantes, dos quais somente cerca de 1400 domiciliados na área urbana.24 Em 1960, o Distrito Federal já abrigava 141,7 mil pessoas.25

O crescimento populacional no Planalto Central desde então foi vertiginoso. A população do Distrito Federal alcançou dois milhões de habitantes em 2009, no centro de uma região metropolitana totalizando 3,56 milhões.26 A Região Administrativa de Planaltina alcançou 164 mil habitantes em 2011.27

Entretanto, tal crescimento não veio novamente, atrelado a um desenvolvimento industrial comparável. Essa peculiaridade levou o geógrafo Aldo Paviani a caracterizar Brasília — entendida como o conjunto de metrópole e não apenas o chamado “Plano Piloto” — como uma “metrópole terciária”, referindo-se ao setor predominante da economia na aglomeração urbana.28

Depois da Transferência da Capital

Em 22 de abril de 1971, é aprovado o “projeto de urbanização da Pedra Fundamental”, elaborado pela arquiteta Walkyria, da Coordenação de Arquitetura e Urbanismo do Governo do Distrito Federal (CoAU–GDF).29 Atualmente, a configuração do sítio da Pedra Fundamental corresponde àquela prevista em projeto.

Em 11 de junho de 1972 é publicado um artigo no jornal Correio Braziliense intitulado “A Festa da Pedra”. O artigo descreve a inauguração do marco através dos relatos de um participante anônimo: “Festão danado de bonito, nem nunca tinha havido igual. Veio muita gente do distrito, coronel, doutor. Eu estava lá quando botaram o primeiro tijolo de pedra [sic]. No dia da inauguração teve foguetório, música e disucurso sem fim, gente importante demais da conta, tudo morador do Rio de Janeiro. A pedra foi feita com um oco por dentro, onde deixaram muita escritura selada e firmada”.30 Segundo o relatório de tombamento da Pedra Fundamental, na ocasião “por várias semanas a cidade [Planaltina] viveu um clima de festa, o povo só falando na pedra”.31

Em agosto de 1979 acontece o primeiro Encontro do Patrimônio Cultural de Planaltina, sendo elaborado um documento final com algumas recomendações:

(…) que sejam criados mecanismos institucionais e políticos para impedir intervenções nocivas ao Patrimônio Cultural e Natural; que os representantes legítimos da Comunidade de Planaltina se empenhem na inteiração de sua população, para que todos se sintam convidados a zelar pelo seu patrimônio cultural (…).32

Tombamento Distrital

Em 13 de maio de 1982, o diretor do Departamento de Cultura do GDF, Raul F. J. Spinzi Molinas, manda um requerimento ao diretor do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, Setembrino Petri, solicitando informações sobre a existência de documentos referentes à Pedra Fundamental, alegando:

Este Marco Histórico, cujo 60º aniversário de implantação será comemorado em setembro do corrente ano, está sendo estudado com vistas a recuperação e tombamento, tanto do monumento quanto do seu entorno.33

No dia 30 do mês seguinte, a Secretária de Educação e Cultura do Distrito Federal, Eurides Brito, solicita ao presidente da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, Dr. Adwaldo Botto, que seja examinada a possibilidade da elaboração de um carimbo comemorativo em ocasião do aniversário dos 60 anos do assentamento da Pedra Fundamental da Brasília.

Em julho do mesmo ano, o Conselho Comunitário de Planaltina envia um ofício à mesma Secretária, datado do dia 27, aprovando a proposta de tombamento do Departamento de Cultura. O ofício foi assinado pelo presidente do Conselho, João de Souza Lima, e expõe entre os motivos para a decisão:

(…) a importãncia histórica que se reveste a PEDRA FUNDAMENTAL DO DISTRITO FEDERAL, marco físico da decisão de interiorização da Capital do País; [e o fato de] que a área onde está situado o referido Marco, pode vir a ser objeto de interesses imobiliários, crescentes em Planaltina (…)34

Em 04 de agosto de 1982, o arquiteto Raul Molinas, diretor do Departamento de Cultura, manda à Secretária de Educação e Cultura, Eurides Brito, um ofício solicitando providências para a elaboração do decreto de tombamento da Pedra Fundamental.35 Quinze dias depois, em ocasião ao aniversário de 123 anos da cidade de Planaltina, o Governador José Ornellas assinou os decretos de tombamento do Museu Histórico e Artístico da cidade e da Igreja de São Sebastião.36

Finalmente, exatamente 60 anos após o assentamento da Pedra Fundamental, no dia 7 de setembro de 1982, o Gov. José Ornellas assina o Decreto de tombamento da Pedra Fundamental em cerimônia solene às 12 horas, com proclamação do Hino da Independência pelo Madrigal da Escola de Música de Brasília e colocação de placa alusiva à ocasião. Estiveram entre os presentes o Engenheiro Balduíno, Gabriel de Campos Salgado, Cassimiro de Souza e Silva, Gelmires Reis e Francisco Gonçalves Mundim, todos remanescentes signatários da Ata de lançamento da Pedra em 1922, e também membros das famílias do presidente Epitácio Pessoa e do Deputado Americano do Brasil.37 Durante a proclamação, um dos oradores (discurso sem identificação do autor) pronuncia:

Que as gerações futuras, pelo correr dos tempos, ajudem a preservar este marco, compreendendo-lhe todo o significado, mais do que desejo, é a nossa esperança, posto que os povos que não cultivam a tradição de alguma forma morrem em cada geração.38

No processo de tombamento da pedra consta a seguinte justificativa para a proteção do marco:

A proposta de tombamento, objeto deste processo, se fundamenta inicialmente no valor histórico conferido ao marco (…) a proteção simultânea ao entorno é imprescindível, para assegurar a visibilidade de ambiência, contribuindo, já, para a preservação da paisagem natural, contexto onde ele se insere. Assim, o monumento a vir a ser tombado estará mantido em sua moldura.39

Em 08 de setembro1982 é publicado no Diário Oficial do Distrito Federal o Decreto n. 7.010 , que “dispõe sobre o tombamento provisório da Pedra Fundamental do Distrito Federal e Seu Entorno”.40

Iniciativas para Tombamento como Patrimônio Nacional

No dia 7 de janeiro de 2012, o Professor Xiko Mendes publica no blog da Academia Planaltinense de Letras texto indagando: “A Pedra Fundamental, em Planaltina-DF, Marco Zero da Construção de Brasília, pode ser Patrimônio Histórico Nacional tombado pelo Iphan?”. Nele, solicita:

(…)que o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) oficialize o tombamento desse obelisco como Patrimônio Nacional do Povo Brasileiro tendo em vista que ele é, efetivamente, o Marco Zero do Compromisso da República em mudar a capital federal (…) que a Câmara Legislativa do Distrito Federal e o GDF edifiquem, ao lado da Pedra Fundamental, uma estátua do Deputado Lauro Müller (…) [e] que seja afixada uma Placa Comemorativa aos 90 Anos da Pedra Fundamental.41

Doze dias depois, é publicada uma matéria no jornal Correio Brasiliense intitulada: “Moradores pedem que pedra fundamental da época da construção seja tombada”, na qual o historiador Robson Eleutério, organizador do movimento “Pedra Fundamental, Patrimônio Nacional”, declara que o tombamento distrital de 1982 não teve participação da comunidade, nem um trabalho histórico que justificasse o título. Afirma também que o movimento estuda a criação de um museu a céu aberto no local do monumento. A mesma reportagem inclui também depoimento do então superintendente do Iphan no Distrito Federal, Alfredo Gastal:

Ele significa um marco da visão territorial do país que se consolida no século 19, ainda durante o Império. Por outro lado, embora o tombamento seja um ato de extrema importância para a preservação dessa memória, é fundamental que, paralelamente, o Governo do Distrito Federal demonstre interesse na transformação dessa área em um ponto de atração turística, tornando esse espaço acessível, com paisagismo adequado e uma infraestrutura básica para receber os seus visitantes, além de colocá-lo como objeto de estudo para os escolares da região.42

A última providência oficial para o tombamento a nível Federal da Pedra Fundamental foi do deputado Carlos Bezerra, que apresentou em Plenário no dia 15/02/2012 a Indicação n. 2526/2012, que “Sugere ao Ministério da Cultura, por itnermédio do Iphan, o tombamento, como Patrimônio Nacional, da Pedra Fundamental da Capital Federal, localizada em Planaltina, DF”. A solicitação foi publicada no Diário da Câmara dos Deputados em 16 de fevereiro de 2012, sendo, no entanto, arquivada no início da sessão legislativa de 2015, por falta de tramitação na legislatura anterior.43

Foto de capa: Agência Brasília / Gabriel Jabur

  1. CAVALCANTI, F. R. Missão Cruls — Exploração e Estudos do Planalto Central do Brasil. Brazilia. Disponível em: http://doc. brazilia. jor.br/Historia/Cruls.shtml. Acesso em: 26 ago. 2012.

  2. SUBSECRETARIA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO, ARTÍSTICO E CULTURAL (Suphac). Processo n. 125.274 : Pedra Fundamental da Futura Capital do Brasil. Brasília: Secretaria de Estado da Cultura do Distrito Federal, 1982, p. 11

  3. Ibid., p. 101

  4. PEDRA Fundamental do Distrito Federal. [Coordenação Valter Albuquerque Mello; texto de Otávio de Brito Pereira]. Brasília: Secretaria de Estado da Cultura. Coordenadoria do Patrimônio Cultural, 1986, p. 12.

  5. Ibid., p. 12

  6. SUPHAC, op. cit., p. 94

  7. Ibid., p. 9

  8. CAVALCANTI, F. R. O lançamento da pedra fundamental de Brasília — 7 de Setembro de 1922 | Centenário da Independência. Brazilia. Disponível em: http://doc. brazilia. jor.br/HistDocs/Congresso/1922-09-07-pedra-Fundamental-lancamento.shtml. Acesso em: 26 ago. 2012.

  9. Os habitantes de Mestre D’Armas referiam-se aos automóveis ford-bigode como “bichos pretos” — os carros que correm sem boi, fazendo um barulho dos infernos e esconjurados pelos moradores assustados. (SUPHAC, op. cit., p. 50).

  10. SUPHAC, op. cit., p. 96

  11. Ibid., p. 95

  12. Ibid., p. 97

  13. Ibid., p. 98

  14. SUPHAC, op. cit., p. 19

  15. CAVALCANTI, Pedra fundamental, op. cit.

  16. SUPHAC, op. cit., p. 61

  17. CAVALCANTI, Pedra fundamental, op. cit.

  18. SUPHAC, op. cit., p. 13

  19. Ibid., p. 21

  20. CAVALCANTI, F. R. Missão Cruls — Exploração e Estudos do Planalto Central do Brasil. Brazilia. Disponível em: http://doc. brazilia. jor.br/Historia/Cruls.shtml. Acesso em: 26 ago. 2012.

  21. SUBSECRETARIA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO, ARTÍSTICO E CULTURAL (Suphac). Processo n. 125.274 : Pedra Fundamental da Futura Capital do Brasil. Brasília: Secretaria de Estado da Cultura do Distrito Federal, 1982, p. 11

  22. Ibid., p. 101

  23. PEDRA Fundamental do Distrito Federal. [Coordenação Valter Albuquerque Mello; texto de Otávio de Brito Pereira]. Brasília: Secretaria de Estado da Cultura. Coordenadoria do Patrimônio Cultural, 1986, p. 12.

  24. Ibid., p. 12

  25. SUPHAC, op. cit., p. 94

  26. Ibid., p. 9

  27. CAVALCANTI, F. R. O lançamento da pedra fundamental de Brasília — 7 de Setembro de 1922 | Centenário da Independência. Brazilia. Disponível em: http://doc. brazilia. jor.br/HistDocs/Congresso/1922-09-07-pedra-Fundamental-lancamento.shtml. Acesso em: 26 ago. 2012.

  28. Os habitantes de Mestre D’Armas referiam-se aos automóveis ford-bigode como “bichos pretos” — os carros que correm sem boi, fazendo um barulho dos infernos e esconjurados pelos moradores assustados. (SUPHAC, op. cit., p. 50).

  29. WALKYRIA. Cidade Satélite Planaltina: Urbanização Pedra Fundamental — Locação. Planaltina, DF: Secretaria de Viação e Obras, 1971. 2 mapas. Escalas 1:500 e 1:1000

  30. SUPHAC, op. cit., p. 37

  31. Ibid., p. 54

  32. Ibid., p. 69

  33. SUPHAC, op. cit., p. 63

  34. Ibid., p. 66

  35. Ibid., p. 68

  36. Ibid., p. 64

  37. Ibid., p. 6465

  38. Ibid., p. 34

  39. Ibid., p. 3839

  40. Ibid., p. 75

  41. MENDES, X. Defesa da Pedra Fundamental como Patrimônio Histórico Nacional. Academia Planaltinense de Letras, 7 jan. 2012. Disponível em: http://academiaplanaltinensedeletras. blogspot. com.br/2012/01/planaltina-df-defesa-da-pedra.html. Acesso em: 26 ago. 2012

  42. PARANHOS, T. Moradores pedem que pedra fundamental da época de construção seja tombada. Correio Braziliense, 19 jan. 2012. Disponível em: http://www. correiobraziliense. com.br/app/noticia/cidades/2012/01/19/interna_cidadesdf,286 842/moradores-pedem-que-pedra-fundamental-da-epoca-de-construcao-seja-tombada.shtml. Acesso em: 19 jan. 2012.

  43. BEZERRA, C. INC 2526/2012. Sugere ao Ministério da Cultura, por intermédio do Iphan, o tombamento, como Patrimônio Nacional, da Pedra Fundamental da Capital Federal, localizada em Planaltina, DF. 15 fev. 2012. Disponível em: http://www. camara. gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=534 705. Acesso em: 7 set. 2015.

 

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