NIMBY

NIMBY é a sigla em inglês para "Not In My Back Yard" — Não No Meu Quintal. Ela designa algum cidadão — cidadão que conta politicamente, isto é, eleitor organizado num grupo com algum poder de pressão ou barganha; lamento informar que o cidadão como eu e você, que paga os seus impostos, respeita a lei e é constantemente oprimido pelo Estado e pelo cidadão safado, não conta. Nós vamos votar de qualquer maneira no candidato que vai ganhar as eleições, ou talvez em algum que não tem chance de ganhar, então o nosso voto não interessa; ele não é valioso e nenhum candidato vai correr atrás dele.
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Enfim. Já o NIMBY é um eleitor extremamente poderoso, capaz de arregimentar hostes de Nimbynhos, deslocar votos em massa, e assustar o candidato a tal ponto que ele prometerá — e, reeleição oblige, provavelmente fará — tudo o que o NIMBY quer e mais um pouco. E o NIMBY, que não é um ser mais safado ou sádico do que a média da humanidade, mas está em campanha com a sua petição de direitos embaixo do braço, sai ganhando. E o cidadão bonzinho, graças à Lei de Lavoisier, sai perdendo.

O que é um NIMBY? 

Mas nem todo grupo de pressão é um NIMBY. Para se tornar um NIMBY, você tem que formar um grupo organizado especificamente para pressionar contra uma proposta urbana ou econômica para a sua vizinhaça (o "Back Yard" da sigla). Geralmente essa pressão vai ser contra um aumento da população, a construção de uma rodovia, ou alguma mudança no uso do solo (a regra que determina quais atividades — usos — são permitidas no lote — solo). Mas não é suficiente. Se você quer ser um NIMBY de verdade, a proposta que você está combatendo tem que ser importante, ou no mínimo ter algum resultado positivo, na cidade como um todo, e você ainda deve propor que a tal proposta seja implementada em algum outro lugar.
O Paladino das causas nobres, que defende que não seja feito a ninguém aquilo que ele não quer que seja feito a si, não é um NIMBY, é um BANANA. Não, não estou xingando ninguém (ainda que às vezes fiquemos nos sentindo uma perfeita fruta tropical ao defender a causa do bom senso contra certas alucinações coletivas); BANANA é outra sigla em inglês significando "Build Absolutely Nothing Anywhere Near Anybody" (Não Construa Nada em Lugar Algum Próximo a Qualquer um).
O NIMBY, portanto, não é contra o desenvolvimento econômico — afinal, ele quer um emprego —, contra a expansão das vias expressas — afinal, ele também dirige — ou contra a densidade — afinal, é preciso adensar em algum lugar para preservar o seu lindo quintal. O que o NIMBY quer é que tudo isso seja feito bem longe do seu quintal — mas não tão longe que ele não possa usufruir de uma pista livre, uma oferta de emprego, ou um shopping, é claro.

Onde encontramos um NIMBY

NIMBYs gostam de se apresentar como defensores da ordem pública, do direito adquirido, e da justiça social. De certa forma é difícil negar, até porque a separação entre o direito adquirido e o errado garantido é constantemente borrada pelas esclarecidas decisões dos nossos magistrados. Então, o NIMBY denunciado por um grupo pode ser o salvador do bairro exaltado por outro, e a grande obra de infra-estrutura tão esperada por um terceiro pode ser o estopim para a Nimbyzação de um quarto.
NIMBYs são, geralmente, seres discretos, que só saem da sua toca para caçar candidatos desavisados em época de eleições, de revisão do plano diretor, ou de alguma sessão excepcional da assembléia local (são sessões excepcionais aquelas que contam com um quórum de mais de um quinto dos representantes eleitos).
A elaboração do Plano Diretor Local do Guará é um caso típico. O Guará é um bairro de Brasília — antigamente dizia-se cidade satélite, mas este termo foi proscrito pela afluência econômica e social dos seus habitantes e pela moda do politicamente correto — e o Plano Diretor Local é uma ginástica legislatória que permite fracionar o PD deste mega-município-neutro que é o Distrito Federal em unidades mais facilmente manejáveis e desta feita contradizer tudo o que o Plano Diretor de Ordenamento Territorial — o PD do DF inteiro — determina, sem fazer nada ilegal.
O tal PDL do Guará, atualmente em fase de discussão, permitiria um aumento na densidade populacional do bairro, com a construção de mais edifícios em altura — o Guará já tem um "setor", como se chamam as zonas do PD por aqui, para prédios de apartamentos — e mais uma via expressa. Bem, não há discussão sobre o mérito do adensamento no Distrito Federal: Brasília é uma das cidades mais espraiadas que a humanidade já concebeu fora dos Estados Unidos e do seu Suburbanismo de Estado. Isto já acarreta transtornos típicos de megalópole caótica global para uma aglomeração que mal chega a 3 milhões de habitantes, somados todos os municípios do "entorno".
Além disso, o espraiamento da cidade se dá pela interposição de glebas e mais glebas de "zona rural" formando cinturões verdes em torno dos bairros, glebas cada vez mais parceladas em lotes ilegais, com direito a todo o pacote de grilagem de terras públicas, extorsão, ameaças a chacareiros renitentes, e mais. Frente a esses problemas, ninguém (exceto o Niemeyer, que já declarou o seu amor por esses cinturões cada vez menos verdes) nega a necessidade de se preencher os vazios subutilizados, organizando um sistema racional de parques e áreas rurais, mas investindo na continuidade da malha urbana. Outra solução, bem menos racional mas ainda vista em Brasília como uma panacéia, é a construção de vias expressas, e faz parte do conjunto de propostas da atual revisão do Plano Diretor.
Obviamente, os habitantes do Guará também reconhecem esta necessidade de criar áreas residenciais em lugares convenientes e próximos ao centro — afinal, faz parte da famosa política habitacional do governo, que ninguém nunca vê, todos reivindicam, e quando ela aparece, desagrada a todos. Também reconhecem — e imploram, dado o trânsito intenso no bairro — a "necessidade" de se construir vias expressas. Mas não querem que a via expressa proposta, chamada "via do contorno" (em Brasília não temos ruas, avenidas ou rodovias, mas as urbanisticamente abstratas "vias"), passe muito perto do Guará. Afinal, "os outros" podem muito bem desafogar o seu trânsito por essa via, liberando o atual — e único — acesso ao Guará para uso (com um pouco de sorte) exclusivo dos interessados. E protestam para que o novo setor residencial seja criado no bairro de outra gente, não no deles — alguém tem que se sacrificar pelo bem coletivo, mas é claro que estamos todos suficientemente sacrificados para ter a autoridade de reclamar que outra pessoa se sacrifique no nosso lugar.
Ampliação da malha viária e habitação para a classe média? Sim, por favor, mas no quintal dos outros!

 

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