Como projetar um edifício modernista
Anda-se comentando na lista de discussão arquitetura [arroba] yahoogrupos [ponto] com [ponto] br que a maioria das mensagens envolve crítica a algum projeto de que não gostamos, e raramente aparecem comentários positivos. Para contribuir com a "postura positiva", e mostrar que eu não gosto só de arquitetura clássica, vamos ter hoje uma lição de boa arquitetura recente da parte de um mestre modernista.
O edifício em questão é a Menil Collection, um pequeno museu particular em Houston, Estados Unidos, projeto de Renzo Piano em 1982. Ele ocupa boa parte de um quarteirão num bairro residencial, composto por sobrados e bangalôs de madeira em vários estilos ecléticos. Seus vizinhos são a capela brutalista de Philip Johnson com afrescos de Mark Rothko, uma pracinha triste e desolada, e mais adiante uma capela com afrescos bizantinos.
Lição n.º 1: Urbanidade
Apesar de um museu ser um edifício importante, o arquiteto não abusa da sua liberdade. O pórtico fica alinhado com os recuos das demais casas da rua. Nada de fazer um prédio torto, no miolo do terreno, sobre pilotis ou qualquer outra disposição que interrompa o fechamento visual do passeio público. Aqui, o governo foi preguiçoso e não arborizou a rua como deveria (o outro lado é igual), mas dá para ver no canto mais distante como o edifício é modesto e respeita a primazia dos elementos públicos: calçadas e arborização. A pavimentação da entrada principal tem material e aparência idênticos aos da calçada pública, sem nenhum degrau ou mesmo rampa entre as duas, o que realça de maneira discreta que aquilo é o acesso a um edifício aberto ao público. As casas particulares, uma das quais abriga a livraria do museu, têm uma escadinha na frente da entrada (não há muros, isso é que é um país seguro).

Lição n.º 2: Contextualismo
Urbanidade é o mínimo da boa educação, e evita que o espaço público fique ilegível. Contextualismo é uma marca de gentileza para com o próximo, a prova de que se sabe viver em sociedade. Ele decorre do respeito aos mais velhos, e de um conjunto mínimo de valores em comum sem os quais o diálogo se torna impossível. Primeiro, vamos olhar a configuração geral do edifício: não há dúvida de que ele é muito maior que uma casa. Mesmo assim, ele se espalha horizontalmente para que a sua altura não ultrapasse muito a dos vizinhos; o parapeito do primeiro andar fica mais ou menos no nível da cumeeira das casas.
As fachadas adotam o motivo das varandas, predominante no bairro como em todo o sul do país: é uma zona de transição entre o passeio público e a reserva particular do interior, além de ser uma ótima proteção contra o sol forte do Texas (pois é, eu dei um tremendo azar, e tive que enfrentar um dos raros dias nublados e gélidos de Houston; mesmo assim, ainda dá para ver a sombra na parede neste fim de tarde de inverno). Os escritórios no primeiro andar têm janelas de verdade, veja só. Qual a probabilidade tem um edifício modernista não-residencial, projetado por um arquiteto famoso, de ter janelas normais? Entre panos de vidro, paredes cegas e faixas horizontais , a gama de alternativas para arruinar o conforto visual, térmico e luminoso, à disposição do projetista é muito larga. Quem sabe resistir à tentação está de parabéns. Colocar poucas janelas numa parede sem modulação, em particular, parece ser um (péssimo) hábito de arquitetos que tentam dar um toque "moderno" a projetos que se inserem num contexto tradicional. Renzo Piano evita o duplo problema e coloca aberturas sem medo numa parede agradavelmente dividida em painéis.
Agora, olhe à volta das janelas: madeira. Não um daqueles compostos laminados high-tech, curvos, ou envernizados com os quais os arquitetos gostam de exibir a fortuna do cliente. Uma simples vedação em clapboard de pinus que envelheceu ao natural. A única diferença para a vedação das casas vizinhas é que na maioria delas a madeira é pintada. Os panos de vedação (provavelmente um sanduíche high-tech de gesso acartonado, isolante mineral, impermeabilizante plástico e barreira de vapor) são delimitados pela estrutura do edifício, colunas e vigas de aço pintadas de branco. Branca também é a pintura das colunas e entablamentos na arquitetura de estilo colonial americana.

Lição n.º 3: Verossimilhança na atitude
A lei da gravidade segue uma regrinha bastante elementar: tudo o que é mais pesado que o ar vai ao chão, e para que algo não vá ao chão é preciso exercer uma força em contrário. A lei da entropia também é muito simples: toda matéria tende a se degradar em direção a formas mais elementares e estáveis, e para retardar essa tendência é preciso proteger a matéria dos elementos que contribuam para sua degradação. Não há dúvida de que qualquer construção que se preze deve oferecer a devida resistência a ambas as leis, sob pena de ver sua existência física abreviada.
Verossimilhança na atitude é o conceito de que a arquitetura deve não apenas oferecer a resistência mencionada, mas mostrar a resistência sendo exercida. E mostrar, no caso, não é mais uma simples adequação física, e tem a ver com a percepção humana. Uma laje pode dar a impressão de estar flutuando porque seus apoios não são visíveis: a laje está verdadeiramente apoiada em algum lugar, porque ainda não descobrimos uma maneira econômica de fazer o concreto levitar, mas esta situação é inverossímil porque não se sabe onde ela está apoiada. Uma fachada de vidro pode ser perfeitamente bem isolada e impermeabilizada, mas ela aparece aos olhos da maioria como uma película frágil (se o vidro não for espelhado).
Verossimilhança não é simplesmente mostrar os verdadeiros apoios da laje, ou fazer uma parede espessa para que seu papel de proteção fique evidente. Às vezes, é preciso ou desejável usar um elemento que não é realmente estrutural, para dar a impressão de um apoio sólido. Ou pode-se fazer uma parede aparentemente sólida e espessa, mas cujo interior é ocupado por tubos e canso de instalações, armários ou até quartos de depósito. O que conta é o efeito resultante que o usuário experimenta. Em todas as épocas, arquitetos usaram violações à regra da verossimilhança para criar efeitos inusitados e intrigantes. Mas os efeitos são interessantes justamente porque são violações pontuais de conjuntos verossímeis. No nosso caso, Renzo Piano nos brinda com um show de verossimilhança habilmente executada. A madeira da vedação desempenha um papel mínimo no envelope protetor do edifício: é um material frágil, sensível à umidade, e com propriedades termoacústicas reduzidas.
A opção pela madeira em vez de materiais high-tech usados em outros de seus projetos é justamente uma opção de representação: madeira é o material de construção por excelência nos Estados Unidos; da mesma maneira que nós, brasileiros, associamos "cobertura" com "telha colonial", o americano associa "casa" com "madeira", ainda que a maioria das casas recentes tenha vedação de vinil imitando madeira (verossimilhança em duas etapas). Na estrutura metálica agora: observe a treliça que forma a estrutura horizontal da varanda: bastante leve, não? Agora logo abaixo: o que temos é um quebra-sol inclinado, oferecendo à vista a aparência de uma estrutura horizontal muito mais alta e sólida. A inclinação do brise não oferece nenhuma vantagem no controle da luz solar e não desempenha nenhuma função estrutural ou mecânica (a cobertura apoiada na treliça já recolhe a água da chuva). Seu único propósito é visual: o quebra-sol parece uma arquitrave de altura adequada, mesmo para quem sabe que ele não é. Observe como, nos fundos, o arquiteto não teve a mesma preocupação.

Lição n.º 4: Luz natural e luz artificial
O ser humano, via de regra, prefere luz natural. Mas uma obra de arte dificilmente resiste a anos de exposição à luz do dia: ela é forte demais, muito mais do que a mais potente lâmpada elétrica. O melhor é uma combinação de luz natural indireta e luz artificial. Para realçar as obras, o melhor é usar spots direcionais que fornecem a iluminação necessária e suficiente, sem exageros nem escuridão. Veja como neste interior o trilho dos spots está integrado com os quebra-sóis, cujo desenho bloqueia a insolação direta e espalha a luz difusa. Observe o fundo do corredor, onde não há obras de arte e portanto pode-se admitir toda a luz natural que for possível. Agora observe o projeto de iluminação (ou falta dele) no Museu Oscar Niemeyer, num artigo anterior. Por hoje é só. Espero que os arquitetos tirem bom proveito dessas lições do mestre e que aprendam a tirar lições de outras grandes obras (por que é que nós sempre achamos que temos que inventar tudo do zero?).
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