Aniversário do urbanismo esquizofrênico

Centro Cultural Banco do BrasilHoje celebramos os 50 anos da inauguração de Brasília. A conjunção astral dessa efeméride com os eventos desse baixo mundo resultou, como de costume, na renúncia a toda e qualquer racionalidade na discussão urbanística dos últimos dias. Por isso, vou me abster de comentar sobre o projeto original, sobre a épica construção da cidade pelos candangos, e de tudo o que está na moda. Quem quiser ler sobre tudo isso que abra o jornal.

Os escândalos políticos dos últimos meses deflagraram uma reação visceral na mídia brasiliense, e não se sabe até que ponto ela reflete a opinião geral da sociedade. A campanha contra a intervenção federal no DF é a principal bandeira levantada, entre outros, pelo Correio Braziliense. Por trás dela vieram mil outras demonstrações de fidelidade eterna, num trem puxado pela eterna brasiliete Conceição Freitas, colunista do mesmo jornal.

Não se pode negar que os partidários da intervenção têm seu quinhão de publicidade nos jornais. No entanto, defender os méritos de Brasília virou uma questão de honra para o jornalismo local. O próprio Correio Braziliense está numa lua-de-mel com o novo governador eleito, Rogério Rosso, do tipo que não se via desde os primeiros meses da gestão de José Roberto Arruda. O semblante de normalidade política está sendo pintado como a grande conquista da cidade às vésperas do seu aniversário.

Nesse cenário, as flagrantes ilegalidades do Plano Diretor de Ordenamento Territorial, que deve ter vários de seus artigos declarados inconstitucionais pelo TJDFT, de vícios políticos inerentes à legislatura brasiliense que são, viram em sua provável revogação símbolos do bom funcionamento das instituições do DF.

Hoje, optamos por esquecer que as regiões administrativas do DF continuam sem Planos Diretores Locais, ou com os mesmos desatualizados, desfigurados por emendas de uma época em que poucos questionavam a legitimidade da Câmara Legislativa alterar índices de ocupação e destinações de lotes. Esquecemos também que o Zoneamento Ecológico-Econômico do DF ainda não foi concluído, deixando o PDOT ainda mais capenga. Sem falar que a Polícia Ambiental tem apenas uma viatura para atender a todo o DF.

Optamos por esquecer que os maiores e melhores projetos do governo Arruda ficaram no papel enquanto todos corriam para inaugurar viadutos — e que isso não deve mudar na atual administração interina, nem no próximo governo. A avenida interbairros ligando Samambaia ao Guará, a transformação da Estrada Parque Taguatinga em avenida urbana, o paisagismo do Parque Burle Marx e, mais importante que tudo, a implantação do Centro Metropolitano com a descentralização administrativa e econômica do DF, nada disso passou de promessas levantadas pelo ex-secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação Cássio Taniguchi e seu mentor/consultor Jaime Lerner.

A EPTG está ganhando novos viadutos, novas faixas de rolamento, marginais, passarelas, vias exclusivas para ônibus — tudo o que caracteriza uma via expressa convencional, apesar da ocupação urbana de várias décadas em suas margens pedir uma solução de integração urbana, e não um fosso povoado por monstros de aço intimidando os cidadãos lindeiros. A avenida interbairros só não teve o mesmo destino porque nesse caso nem a via expressa foi implantada. Brasília continua sendo uma cidade de gargalos na malha viária, tornando inócua toda e qualquer ampliação de faixas de rolamento nas vias existentes.

Enquanto as licitações e obras do Setor Noroeste avançam com grande estardalhaço, ninguém dá notícia da implantação do Parque Burle Marx, irmão gêmeo do Parque da Cidade, com o qual a proposta de criação de um corredor paisagístico atravessando o Eixo Monumental foi prontamente sepultada.

Por fim, nada se compara à campanha — aparentemente espontânea — de difamação da proposta, apenas timidamente iniciada por Arruda, de descentralizar o governo distrital. Com a implantação do “Buritinga”, sede administrativa do GDF em Taguatinga Norte, o ex-governador deu o primeiro passo para equilibrar demografia e empregos na metrópole. Taguatinga e Ceilândia concentram a maior parte da população do DF, e juntando-se Águas Claras temos também na porção sudoeste de Brasília a maior parte da classe média metropolitana. No entanto, 70 % dos empregos formais estão concentrados no Plano Piloto, que responde por menos de 200.000 dos mais de dois milhões de habitantes do DF — o projeto original previa 500.000 moradores, mas a diminuição no tamanho das famílias desde então mudou o cenário.

Para ser honesto, o projeto começou a desandar quando a antiga idéia de um Centro Metropolitano em torno de uma sede do GDF virou, ainda nos primórdios da gestão de Arruda, a proposta de um mero centro administrativo anti-urbano às margens da EPTG, cortesia do arquiteto Paulo Zimbres que também brindou a cidade com o projeto urbanístico de Águas Claras — o mesmo arquiteto também responde pelo projeto do Setor Noroeste: como é bom ser amigo dos reis…

Enquanto isso, começaram a surgir ferrenhas críticas à simples idéia de se descentralizar o governo. Cidadãos e burocratas insurgiram-se contra a proposta, com o mesmo argumento batido de sempre: “fere o tombamento!” Isso porque o projeto de Lucio Costa previa que o governo distrital seria implantado no Eixo Monumental, para o que foi construído o Palácio do Buriti e, mais recentemente, as sedes do TJDFT e da Câmara Legislativa. Não duvido de que os mesmos que defendem a manutenção do GDF no Plano Piloto como se a sua remoção fosse um crime capital contra o patrimônio histórico sejam os mesmos que reclamam do trânsito que enfrentam todos os que precisam sair de Taguatinga para dar expediente no Palácio do Buriti…

Com o afastamento de Arruda, Paulo Octávio transferiu a cúpula do GDF de volta para o Buriti. Wilson Lima, o primeiro interino, e Rogério Rosso, o governador eleito pela Câmara Legislativa no último sábado, acabaram decididamente com o Buritinga. Todos os indícios apontam para uma morte lenta e silenciosa do projeto de descentralização do governo distrital. Assim caminha o planejamento urbano na nossa capital.

Hoje celebramos os 50 anos da inauguração de Brasília. Dá até para esquecer que amanhã são 40 anos do primeiro Dia da Terra, e que em agosto marcamos 151 anos da fundação de Planaltina. Vou esquecer por hoje também, mas a partir de amanhã não temos mais desculpa para dormir no ponto.

Comentários

Comentar

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Por favor responda ao desafio abaixo. Isto é necessário para evitar spam gerado por bots.
Image CAPTCHA
Enter the characters shown in the image.
To prevent automated spam submissions leave this field empty.

 

Feed RSS: