Área central de Brasília

365 Dias de Transição

Sustentabilidade e patrimônio cultural
Pesquisa, projeto, reforma, restauro e recebimento de imóveis

Em 11 de fevereiro de 2010, o governador do Distrito Federal José Roberto Arruda era conduzido à carceragem da Polícia Federal para de lá sair só como ex-governador. Começava naquele dia um longo processo de transição administrativa, com dois governadores interinos e praticamente três renovações do gabinete em menos de um ano. O impacto dessa transição na política urbana local foi tremendo.

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A foto da semana: a mancha urbana de Brasília, vista do espaço.
Fonte: Folha de S. Paulo

Mais de um mês depois da posse do governador Agnelo Queiroz, incertezas urbanísticas continuam. Estas devem-se em parte ao processo público de purificação ritual do governo, que busca enterrar qualquer lembrança de feitos memoráveis da gestão anterior (exceto os lamentavelmente memoráveis, que rendem propaganda negativa). Nada de novo sob o sol — dos faraós do Egito aos antigos romanos, que conheciam a prática como damnatio memoriae, apagar da história um desafeto era um dos maiores castigos políticos concebíveis.

A herança do governo Arruda e dos governos de transição, no entanto, não foi propriamente substituída por outras políticas propositivas, ao menos em se tratando de urbanismo. Talvez porque no Brasil o ano só comece mesmo depois do Carnaval (e ainda falta um mês!), talvez porque após doze anos de fileiras minguadas na política local o PT-DF esteja um pouco desorientado na composição administrativa, o governo estatutário continua dando ares de transição para rumos incertos.

O legado urbanístico de Arruda não é, decerto, unânime. A reforma da EPTG foi objeto de uma queda de braço entre as secretarias de desenvolvimento urbano e de transportes, cada qual com suas prioridades técnicas irreconciliáveis. O VLT foi uma boa idéia muito mal explicada, e também comprometida pela incompatibilidade astral das secretarias com o IPHAN. A remoção da feira da Torre de TV, uma péssima idéia muito bem vendida (em todos os sentidos). A via interbairros, cujo pré-requisito seria uma megalomaníaca operação de enterro de linhas de alta tensão, nem chegou a sair do papel. Do novo-futuro centro administrativo distrital, apresentado numa perspectiva medíocre saída, dizem, do escritório de Paulo Zimbres, assim como do Setor Noroeste, projeto do mesmo arquiteto, melhor nem falar. E o Plano Diretor, como de costume, tramitou de carona num rolo compressor e foi aprovado sob suspeitas.

Ainda assim, não se pode negar que foi um governo proativo em políticas urbanas, equivocadas ou não. A assessoria de Jaime Lerner e a presença de seu discípulo Cássio Taniguchi como titular da secretaria de desenvolvimento urbano foram auspiciosas, apesar de postas parcialmente em xeque pelo lobby das empresas de ônibus e pelo xerifão (literalmente) da secretaria de transportes, o delegado Alberto Fraga.

Em comparação com a gestão Arruda, o desempenho urbanístico do governo local em 2010 foi bisonho. Não que tenha sido muito pior do que aquilo a que estivemos acostumados nos últimos vinte-e-poucos anos, mas enfim, havia expectativas e tal. O IPHAN achacado por um Ministério Público que chafurda na mesma lama de Arruda, as empresas de ônibus, e alguns aposentados que nunca usaram o transporte público se uniram para enterrar o VLT. O projeto de descentralização administrativa do GDF foi engavetado enquanto a Câmara Legislativa inaugurava sua grandiosa sede em frente ao Palácio do Buriti. A queda de braço em torno da EPTG foi definitivamente vencida pela secretaria de transportes, que, ignorando a ocupação urbana já consolidada às margens da via, fez dela uma auto-estrada sem pontos de travessia para os pedestres. A imprensa local, chapa-branca não importa o partido no poder, comprou a propaganda oficial sobre o Setor Noroeste e resolveu esquecer que o Plano Diretor continua sob contestação constitucional.

O governo atual começou com muitas (re)negações, dedos apontando culpados, e poucas propostas. Ou seja, com mais cara de transição (que deveria ter ocorrido logo após as eleições, não depois da posse) do que de gestão. Mas ainda falta um tempo para a proverbial marca dos cem dias, geralmente usada para denotar um balanço preliminar dos novos mandatários. Quando a transição acabar, teremos o desurbanismo de sempre ou uma política urbana coerente? É pagar pra ver.

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