Conversando com pepinos: Príncipe Charles X Arquitetura moderna, Round 2
Lá vem mais uma do Príncipe Charles: 25 anos depois da sua famosa e escandalosa interferência no projeto de ampliação da Galeira Nacional de Arte de Londres ele ataca novamente, aterrorizando os arquitetos modernistas britânicos.
Para o público brasileiro, Charles, o Príncipe de Gales, é mais conhecido como ex-marido da finada Lady Di, distinto senhor sexagenário (o mais velho príncipe herdeiro do mundo) com orelhas de abano, tendo o curioso hábito de conversar com as cenouras da sua horta e a inesquecível tirada sobre querer ser o Modess da Duquesa de Cornualha (desejo finalmente realizado).
Na Europa, porém, o Príncipe de Gales também é famoso por qualidades menos pitorescas, a maioria delas ligada à promoção da sustentabilidade: além de ser defensor da agricultura orgânica (daí os seus altos papos com cenouras e pepinos), ele é um notório simpatizante da arquitetura e do urbanismo tradicionais e um ferrenho opositor à arquitetura modernista (daí o seu ódio por pepinos com pele de vidro como o da foto ao lado).
Em 1984, o Príncipe causou furor na comunidade arquitetônica ao criticar veementemente a proposta de extensão da Galeria Nacional de Arte, chamando-a de “uma verruga monstruosa no rosto de um amigo querido e elegante”. O Royal Institute of British Architects (RIBA), que havia promovido um concurso para selecionar a proposta, chiou, esperneou e sapateou contra a interferência indevida de Sua Alteza, mas o público aplaudiu, a administração do museu entendeu o recado, e o escritório de Denise Scott Brown e Robert Venturi foi chamado para projetar uma ampliação que se harmonizasse melhor com o edifício original.
Desde então Charles tinha trocado os discursos inflamados por iniciativas concretas e menos controversas, patrocinando arquitetos e urbanistas adeptos de diversas vertentes da arquitetura tradicional, desde o ultra-clássico Quinlan Terry, passando pelo moderado Robert Adam, até o excêntrico teórico e projetista luxemburguês Léon Krier. A principal realização deste último com o Príncipe foi a cidade nova de Poundbury, uma radical junção dos conceitos de urbanismo tradicional, consciência social e sustentabilidade ainda não igualada por qualquer projeto urbanístico modernista. Pois diante do sucesso prático do Príncipe, o RIBA voltou a chamá-lo, 25 anos depois, para um novo discurso.
A nova polêmica
Agora, às vésperas de uma possível reconciliação com os modernistas em cima do tema da sustentabilidade, Charles volta às colunas de crítica de arquitetura. O pomo da discórdia, dessa vez, é um projeto do escritório de Richard Rogers para um conjunto habitacional em Chelsea, no antigo sítio de um quartel, na extremidade oeste de Londres, próximo a um hospital do século XVIII projetado pelo maior dos arquitetos ingleses, Christopher Wren. Obviamente, as críticas do Príncipe causaram uma reação corporativista por parte dos arquitetos modernistas, que criticaram duramente a “intromissão” de um personagem cerimonial no “processo democrático” de planejamento do sítio.
Democrático? Bem, há controvérsias. Como em qualquer lugar do mundo, a aprovação de projetos é uma tarefa administrativa e não política. Logo, falar em democracia nesse processo é apenas um bordão demagógico sem sentido. Além disso, uma pesquisa de opinião realizada no site do jornal The Guardian, cuja base de leitores é predominantemente de esquerda e por isso, supõe-se, mais alinhada com as vanguardas artísticas, resultou em mais de 70 % de votos contrários ao projeto de Rogers. Segundo um artigo na imprensa inglesa, o Príncipe estaria dando voz à frustração da comunidade local contra a falta de transparência no processo de aprovação. Segundo outro, ele estaria tendo sucesso no seu lobby graças à amizade pessoal que ele tem com o Emir do Catar, proprietário da incorporadora que adquiriu a gleba. O ex-prefeito de Londres, Ken Livingstone, figura preeminente na política britânica (e admirador de Hugo Chávez), fez um pedido ao atual prefeito, Boris Johnson, para que ele censurasse publicamente a atitude do Príncipe. Como resposta, viu o vice-prefeito Kit Malthouse juntar-se ao coro das críticas do Príncipe Charles ao projeto de Rogers.
Desdobramentos
Então, podem os entusiastas da quebra de protocolo do Príncipe cantar vitória? Ou pelo menos aplaudir a iniciativa? Ou, ao contrário, sair em defesa da liberdade criativa do arquiteto modernista? É preciso ter cautela nessa hora pois várias circunstâncias dessa disputa não estão sendo apresentadas de modo transparente.
Em primeiro lugar, o projeto de Rogers é, de fato, impróprio para o sítio por ter um gabarito bem maior que o entorno imediato, especialmente o hospital. Para disfarçar a altura dos edifícios, o projeto adota uma solução anti-urbana, rompendo com a escala dos quarteirões do entorno e criando uma espécie de superquadra gigante, onde os edifícios mostram a empena para a rua. Ou vice-versa, a solução anti-urbana do conjunto forçou a concentração das unidades imobiliárias em prédios relativamente altos. Mas isso, em parte, deriva de imposições de retorno do investimento, já que a incorporadora em questão pagou quase 1 bilhão de Libras (quase 3 bilhões de Reais) pela gleba.
Além disso, há riscos em se defender que a aprovação de projetos urbanos seja transformada em um processo democrático e participativo. Qual é o risco? O de toda e qualquer proposta de urbanização ser emperrada por grupos de pressão locais. Em Brasília temos como exemplo a oposição dos moradores do Guará e do Altiplano Leste contra o adensamento das suas áreas. Não é que grupos de pressão estejam invariavelmente errados, longe disso — mas no planejamento urbano é preciso que questões mais amplas sejam levadas em conta, o que raramente pode ocorrer quando a discussão fica polarizada localmente.
Finalmente, a disputa pessoal entre Quinlan Terry e Richard Rogers vem de longe, e os ânimos acirrados dos amigos recrutados de cada lado refletem mais relações (des)afetivas do que a qualidade das propostas. E, se o projeto de Rogers é uma afronta ao bom urbanismo, o contra-projeto de Terry também é muito fraco, lembrando mais as primeiras mega-estruturas de escritórios surgidas no século XIX do que a adorável e diversificada malha urbana londrina. Verdade é que o croquis de Terry (representado na imagem acima) foi feito às pressas para propor uma alternativa que fosse vista como comercialmente viável, mas quem critica tem a responsabilidade de apresentar uma alternativa melhor.
Todas essas questões parecem estar sendo reduzidas a uma disputa de estilo arquitetônico, enquanto que este é apenas um dos componentes do problema, um componente com certeza importante e que tende a abarcar, naturalmente, a questão do “estilo urbano”, por assim dizer, mas que não se resume a um embate clássico X moderno. Essa redução é prejudicial tanto ao interesse do Príncipe em defender sua posição quanto à sustentabilidade e à urbanidade, quanto à possibilidade dos debates que se seguirão atingirem o ponto central do problema.
Outros artigos para aprofundar: Jonathan Glancey no The Guardian e uma matéria no Sunday Times
E mais, uma pesquisa de opinião no jornal (esquerdista) The Guardian: O Príncipe Charles faz bem à arquitetura britânica?
E ainda: um mapa da localização do sítio controverso
Exibir mapa ampliado


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