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Patrimônio histórico e vandalismo: não foi no Brasil (dessa vez)
Wed, 05/08/2009 - 19:50 — Pedro P. PalazzoEsse tipo de barbaridade é recorrente no Brasil, mas se servir de (sádico) consolo não é só por aqui que essas coisas acontecem. O site La tribune de l'art noticiou que, em junho deste ano, o prefeito de Witzenheim, cidade do leste da França, mandou desfigurar as estátuas que decoravam o exterior de uma capela neogótica de 1862, inscrita no inventário nacional de monumentos históricos (um estágio abaixo do tombamento formal, nesse país).
O mesmo site relata que a desculpa do prefeito é o risco de fragmentos se desprenderem das estátuas e caírem nos pedestres circulando em torno da capela. As imagens publicadas pela Tribune de l'art, no entanto, dão a impressão de um vandalismo descarado. Mas, por trás dessa desculpa furada, é difícil imaginar a real motivação da prefeitura em destruir as estátuas. Se o objetivo fosse promover a demolição da capela, faria mais sentido “atacar” elementos estruturais, como a cobertura ou as gárgulas, que se encontram em estado mais avançado de degradação.
No Brasil, acontecimentos como esse são tristemente freqüentes e, muitas vezes, bem mais descarados. Com o pretexto da falta de recursos para manter um imóvel histórico, e por causa da idéia de que uma casa de concreto é mais funcional e mais barata — quando não mais “bonita” do que essas “velharias” —, muitos proprietários de imóveis históricos dão uma mãozinha para a ação do tempo e aceleram a ruína de suas propriedades. Em Novo Hamburgo, a revista eletrônica Die Zeit tem registrado e publicado vários casos de edifícios históricos demolidos recentemente.
Em muitos casos, o poder público, que deveria estar zelando pela conservação desse patrimônio, contribui para a sua destruição. A falta de legislação de planejamento urbano, ou mesmo planos diretores que consideram apenas objetivos de dinamização econômica e arrecadação fiscal imediatistas, sem levar em conta valores históricos e seu potencial sócio-econômico no longo prazo, legitimam a ignorância e a falta de respeito para com o patrimônio histórico de nossas cidades. Se a prefeitura diz para os proprietários que o mais importante é atingir o índice de aproveitamento estipulado e maximizar a arrecadação de IPTU, que cidadão nesse nosso país carente de políticas de educação patrimonial vai remar contra a maré?

Casa em Luziânia (Goiás), demolida em 2009
Como mostra o caso francês que citei acima, no entanto, a ação normativa do poder público (inscrições e tombamentos) é insuficiente para proteger a arquitetura histórica se não há conscientização. Não basta haver uma lei, nem mesmo com promessa de punição certeira — o fim da impunidade certamente ajudaria, mas não chega a atingir a raiz do problema, que é cultural e não racional. O cidadão de um país onde o patrimônio histórico é respeitado tem no seu âmago, inculcado por anos de boa educação, a noção de que destruir o patrimônio é tão errado quanto dar um tiro no vizinho. Se na França ocorreu um caso isolado, infelizmente no Brasil, onde muitos políticos não hesitam sequer em exterminar seus desafetos, pedir que não exterminem nosso patrimônio deve ser pedir demais.
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