Obrigado por participar de modo ponderado do debate em nossa lista do docomomo, enriquecendo-o com o artigo acima. Não me manifestarei na lista para evitar mais incompreensão - comum em debates acirrados. Os interessados de lá lerão meu ponto de vista aqui. Espero que a extensão de meu comentário abaixo compense a ausência de manifestações minhas com respeito ao seu post sobre o Príncipe Charles - assunto no qual não tive tempo de me aprofundar.
Quanto ao seu texto, achei por bem passar por aqui e fazer um pequeno esclarecimento e alguns comentários sobre o tema.
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O convite foi encaminhado por mim à lista, e não feito por mim. Na verdade, trata-se de uma iniciativa das artistas plásticas que assinam o e-flyer - a quem eu não conheço. Não tive qualquer relação com a organização da manifestação e, como qualquer um de nós, recebi o convite que repassei para a lista. Tomei o cuidado de repassar em meu nome - e não no nome do docomomo, como de costume - de modo a não associar a instituição com o ato ou o painel.
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Achei boa e perspicaz a aproximação das motivações entre Maurício e Rogério.
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Acho que é consenso hoje em dia que as diversas correntes e teorias do restauro devem ser abordadas e adotadas segundo a situação específica do objeto a ser restaurado. Não há porque cobrar a mesma postura terórica para objetos diferentes de épocas diferentes. Há até um bordão comum no ramo: "Restauro é caso a caso". O mesmo restaurador pode ter uma atitude "idealista" - com vistas a recuperar a feição original ideal "que pode jamais haver existido" - em um caso e uma atitude conservacionista em outro caso. Qual o problema? Não entendi sua bronca nesse sentido.
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Não acho em absoluto que seja fetichismo a realização da pintura sobre painéis. Embora o Rogério tenha se esquecido de mencionar, o que pode realmente ocorrer é que alguns dos elementos químicos da pintura nova penetrem nos poros da tinta do afresco anterior, colaborando para sua deterioração. Acho que o painel solto da parede é, sim, uma boa solução técnica com vistas à reversibilidade.
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Acho que desqualificar peremptoriamente o artista e não a obra é pouco prudente. Afinal, os próprios modernos foram bastante desqualificados pela crítica em seu início. O próprio Galeno pode ter um futuro brilhante no ramo da arte sacra, e pode tornar-se um mestre dela. E nesse caso, a pintura da igrejinha passaria a ser valorizada "a priori" por ser dele - também erroneamente. Acho que no campo da arte algumas leituras só são possíveis com o tempo. Acho inclusive que esta polêmica toda certamente impulsionará a carreira de Galeno.
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Atiçando a polêmica: acho que a Igrejinha é uma obra com uma importância histórica inegável para a cidade - e por isso merece ser tombada e preservada. Como arquitetura, entretanto, considero-a uma obra menor não apenas de Oscar Niemeyer, mas da arquiteura moderna brasiliense em geral. Portanto, no meu entendimento, estaria longe de ser "uma das igrejas mais representativas da modernidade e da comunidade de Brasília" (no seus termos). Se delicado jogo de curvas da nave principal talvez a aproxime da arquitetura das capelas de Niemeyer - via Ronchamp -, o conjunto da obra é certamente triste. A marquise que a caracteriza, com os pilares ocultos na alvenaria, - quase que em balanço na verdade - é uma alegoria estrutural visivelmente desonesta* e funcionalmente pouco efetiva. Não protege da chuva, não fornece sombra e dá um caráter monumental indesejado a uma capela de bairro. Os azulejos de Athos no local, convenhamos, não são suas melhores produções. Os motivos figurativos - em plena explosão do concretismo no Brasil - e o ritmo regular das peças tornam a composição no mínimo ingênua, para não dizer ruim mesmo. Ironicamente, o único ponto de vista em que a igreja lembra a elegância e serenidade das obras do autor, é na vista de fundos, voltada para a escolinha, onde a horizontalidade da marquise reconecta o conjunto com os palácios e - por extensão - com outras obras da cidade, como a Faculdade de Educação, de Alcides da Rocha Miranda.
Faço este comentário apenas "de raspão", pois acho que em nada esse desmerecimento deveria alterar a atitude de um restaurador para com a igreja. É tombada. É patrimônio. É relevante, enfim. Deve ser tratada com cuidado e respeito como objeto de preservação - como certamente é o caso da intervenção em questão.
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Embora haja elementos restaurados (os azulejos, por exemplo), não posso concordar que conceitualmente a intervenção na igreja seja chamada de restauro. Não acho que seja um restauro. É uma intervenção propositiva que altera a leitura do objeto original. O objeto não recupera sua originalidade nem seu aspecto anterior à intervenção. O painel artístico que não corresponde à pintura original (autenticidade original) nem com as diversas pinturas "lisas" que se sobrepuseram sobre ela (autenticidade histórica). Portanto, a rigor, não creio tratar-se de um restauro. É um projeto de arquitetura propositivo. Uma "intervenção artística". para usar o jargão do patrimônio, mas não restauro.
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Há tanta descaracterização "anônima" sendo feita pela cidade afora. Tanta destruição na calada da noite. Acho curioso que vire motivo de polêmica justamente um projeto de preservação bem estudado, feito por arquitetos e executados por artistas plásticos. Por que as denúncias constantes de descaracterização de nossos edifícios não têm a mesma repercussão que este debate? Porque só a Conceição Freitas e a Helena Mader deram ouvidos à denúncia que fizemos quando da colocação do banner na empena do Senado? Porque ninguém se sensibiliza com o sem-número de antenas e outros "gadgets" colocados a torto e direito sobre prédios que não os comportam, como os Ministérios ou mesmo o Congresso Nacional? Os edifícios da 108 sul mesmo, vizinhos da igrejinha, foram reformados com materiais piores que os originais, tiveram seu pilotis fechado, e ninguém polemizou isso na imprensa. Mesmo as sucessivas alterações que foram feitas na Igrejinha: a maioria ocorreu sem maiores repercussões. Agora que alguém planeja, executa com cuidado, a coisa vira uma polêmica? Que triste... Parece uma espécie de convite ao improviso, ao desleixo. "Faça esculhambado que ninguém vai perceber. Faça planejado e será escrachado"...
*Não que eu acredite em honestidade estrutural, mas esse era um dos preceitos da época.
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Bom, acho que por hora é só. Continuamos aguardando um artigo seu para a mdc...
Much ado...
Pedro,
Obrigado por participar de modo ponderado do debate em nossa lista do docomomo, enriquecendo-o com o artigo acima. Não me manifestarei na lista para evitar mais incompreensão - comum em debates acirrados. Os interessados de lá lerão meu ponto de vista aqui. Espero que a extensão de meu comentário abaixo compense a ausência de manifestações minhas com respeito ao seu post sobre o Príncipe Charles - assunto no qual não tive tempo de me aprofundar.
Quanto ao seu texto, achei por bem passar por aqui e fazer um pequeno esclarecimento e alguns comentários sobre o tema.
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O convite foi encaminhado por mim à lista, e não feito por mim. Na verdade, trata-se de uma iniciativa das artistas plásticas que assinam o e-flyer - a quem eu não conheço. Não tive qualquer relação com a organização da manifestação e, como qualquer um de nós, recebi o convite que repassei para a lista. Tomei o cuidado de repassar em meu nome - e não no nome do docomomo, como de costume - de modo a não associar a instituição com o ato ou o painel.
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Achei boa e perspicaz a aproximação das motivações entre Maurício e Rogério.
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Acho que é consenso hoje em dia que as diversas correntes e teorias do restauro devem ser abordadas e adotadas segundo a situação específica do objeto a ser restaurado. Não há porque cobrar a mesma postura terórica para objetos diferentes de épocas diferentes. Há até um bordão comum no ramo: "Restauro é caso a caso". O mesmo restaurador pode ter uma atitude "idealista" - com vistas a recuperar a feição original ideal "que pode jamais haver existido" - em um caso e uma atitude conservacionista em outro caso. Qual o problema? Não entendi sua bronca nesse sentido.
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Não acho em absoluto que seja fetichismo a realização da pintura sobre painéis. Embora o Rogério tenha se esquecido de mencionar, o que pode realmente ocorrer é que alguns dos elementos químicos da pintura nova penetrem nos poros da tinta do afresco anterior, colaborando para sua deterioração. Acho que o painel solto da parede é, sim, uma boa solução técnica com vistas à reversibilidade.
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Acho que desqualificar peremptoriamente o artista e não a obra é pouco prudente. Afinal, os próprios modernos foram bastante desqualificados pela crítica em seu início. O próprio Galeno pode ter um futuro brilhante no ramo da arte sacra, e pode tornar-se um mestre dela. E nesse caso, a pintura da igrejinha passaria a ser valorizada "a priori" por ser dele - também erroneamente. Acho que no campo da arte algumas leituras só são possíveis com o tempo. Acho inclusive que esta polêmica toda certamente impulsionará a carreira de Galeno.
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Atiçando a polêmica: acho que a Igrejinha é uma obra com uma importância histórica inegável para a cidade - e por isso merece ser tombada e preservada. Como arquitetura, entretanto, considero-a uma obra menor não apenas de Oscar Niemeyer, mas da arquiteura moderna brasiliense em geral. Portanto, no meu entendimento, estaria longe de ser "uma das igrejas mais representativas da modernidade e da comunidade de Brasília" (no seus termos). Se delicado jogo de curvas da nave principal talvez a aproxime da arquitetura das capelas de Niemeyer - via Ronchamp -, o conjunto da obra é certamente triste. A marquise que a caracteriza, com os pilares ocultos na alvenaria, - quase que em balanço na verdade - é uma alegoria estrutural visivelmente desonesta* e funcionalmente pouco efetiva. Não protege da chuva, não fornece sombra e dá um caráter monumental indesejado a uma capela de bairro. Os azulejos de Athos no local, convenhamos, não são suas melhores produções. Os motivos figurativos - em plena explosão do concretismo no Brasil - e o ritmo regular das peças tornam a composição no mínimo ingênua, para não dizer ruim mesmo. Ironicamente, o único ponto de vista em que a igreja lembra a elegância e serenidade das obras do autor, é na vista de fundos, voltada para a escolinha, onde a horizontalidade da marquise reconecta o conjunto com os palácios e - por extensão - com outras obras da cidade, como a Faculdade de Educação, de Alcides da Rocha Miranda.
Faço este comentário apenas "de raspão", pois acho que em nada esse desmerecimento deveria alterar a atitude de um restaurador para com a igreja. É tombada. É patrimônio. É relevante, enfim. Deve ser tratada com cuidado e respeito como objeto de preservação - como certamente é o caso da intervenção em questão.
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Embora haja elementos restaurados (os azulejos, por exemplo), não posso concordar que conceitualmente a intervenção na igreja seja chamada de restauro. Não acho que seja um restauro. É uma intervenção propositiva que altera a leitura do objeto original. O objeto não recupera sua originalidade nem seu aspecto anterior à intervenção. O painel artístico que não corresponde à pintura original (autenticidade original) nem com as diversas pinturas "lisas" que se sobrepuseram sobre ela (autenticidade histórica). Portanto, a rigor, não creio tratar-se de um restauro. É um projeto de arquitetura propositivo. Uma "intervenção artística". para usar o jargão do patrimônio, mas não restauro.
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Há tanta descaracterização "anônima" sendo feita pela cidade afora. Tanta destruição na calada da noite. Acho curioso que vire motivo de polêmica justamente um projeto de preservação bem estudado, feito por arquitetos e executados por artistas plásticos. Por que as denúncias constantes de descaracterização de nossos edifícios não têm a mesma repercussão que este debate? Porque só a Conceição Freitas e a Helena Mader deram ouvidos à denúncia que fizemos quando da colocação do banner na empena do Senado? Porque ninguém se sensibiliza com o sem-número de antenas e outros "gadgets" colocados a torto e direito sobre prédios que não os comportam, como os Ministérios ou mesmo o Congresso Nacional? Os edifícios da 108 sul mesmo, vizinhos da igrejinha, foram reformados com materiais piores que os originais, tiveram seu pilotis fechado, e ninguém polemizou isso na imprensa. Mesmo as sucessivas alterações que foram feitas na Igrejinha: a maioria ocorreu sem maiores repercussões. Agora que alguém planeja, executa com cuidado, a coisa vira uma polêmica? Que triste... Parece uma espécie de convite ao improviso, ao desleixo. "Faça esculhambado que ninguém vai perceber. Faça planejado e será escrachado"...
*Não que eu acredite em honestidade estrutural, mas esse era um dos preceitos da época.
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Bom, acho que por hora é só. Continuamos aguardando um artigo seu para a mdc...
Abraço