Por uma Arquitetura com Telhado

"...por que, sobre as gentis casas dos arredores, esses imensos telhados inúteis?”
Le Corbusier, Por Uma Arquitetura (1920/1921)
 

Nos últimos anos estive sempre atento aos projetos dos estudantes, aos concursos de arquitetura e a outras formas de arquitetura “para arquiteto”. Após (profunda) reflexão, coloco a seguinte questão...afinal, por que esse monólogo da laje plana ?
 
Entendo que as escolas brasileiras (ainda) estejam filiadas ideologicamente ao modernismo. E entendo também que é bastante elucidativo ler as origens do movimento moderno, especialmente aqui no Brasil, como um movimento eminentemente estético.
Lembremos da Primeira Casa Modernista em São Paulo, do arquiteto Gregori Warchavchik. Ele tomou diversas decisões técnicas no sentido de se adequar à estética purista, tanto que para aprovação do projeto, teve que apresentar desenhos com uma "falsa" fachada ornamentada. Lembremos também que a casa era de tijolo e que tinha uma cobertura de telhas cerâmicas. Entretanto, era revestida de cimento branco e sua cobertura, oculta por uma platibanda, simulava a casa como um volume puro com uma cobertura terraço.
 Com o desenvolvimento no setor da construção civil, foi possível fazer com que esta divergência estética fosse resolvida. As lajes planas se tornaram a solução comum (pelo menos entre os arquitetos). Observem que é uma solução quase que estritamente compositiva, sendo que, na maioria dos casos, outra forma de cobertura teria um melhor desempenho térmico e escoamento das águas da chuva. Para os que acham que arquitetura moderna e telhado não têm nada a ver, trouxe alguns exemplos elucidativos...
Na Casa Robie (Chicago, EUA, 1909), de Frank Lloyd Wright, a busca pela horizontalidade, tão característica nas suas casas da pradaria, é enfatizada pelo pela disposição da alvenaria, pelos peitoris, pelas esquadrias, mas principalmente pelo telhado de pouca inclinação e com grandes beirais.   
 
 
 
 
 
 
 
 
O Park Hotel São Clemente (Nova Friburgo, BRA, 1944-45), de Lúcio Costa, mescla diversos preceitos da arquitetura moderna com a busca pela identidade local. Esta síntese é bastante clara no uso de materiais locais, mas especialmente no uso de varandas e na solução da cobertura com telhas cerâmicas, tudo isso em um partido linear com planta livre. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fernando Távora, Álvaro Siza e equipe, na Casa de Chá da Boa Nova (Leça da Palmeira, POR, 1958-63) apresentam um trabalho de implantação muito interessante em meio à formação rochosa. A cobertura é um jogo de diversos planos de lajes de concreto, sobre as quais são fixadas telhas cerâmicas. Sua composição dialoga tanto com a paisagem, quanto com a divisão espacial interna, apresentando diversas mudanças de pé-direito e, em certos momentos, permitindo a entrada de luz natural.
 
 
 
 
 
 
 
Poderia enumerar diversas outras soluções de cobertura, questionar a durabilidade, comparar as patologias que as mesmas sofrem, apresentar diversos outros projetos interessantes, mas fica a seguinte pergunta no ar:
Por que não buscar, também, outras soluções arquitetônicas ?
 

 

Feed RSS: