Arquitetura + Tecnologia = Autofagia ?
Tenho notado que o meio arquitetônico brasileiro ainda sustenta um paradigma teórico que há décadas já foi revisto, revisado e criticado no exterior. É a noção de arquitetura como resultado lógico e direto do desenvolvimento tecnológico, algo como uma teoria da evolução Darwinista aplicada à arquitetura. É uma abordagem que coloca a tecnologia e a arquitetura lado a lado em uma relação de causa e efeito.
Essa leitura da arquitetura torna-se evidente durante a revolução industrial, em alguns movimentos do século XIX, mas consolida-se com as vanguardas do início do século XX, como por exemplo, com o modernismo europeu. Apesar de existirem várias referências, os artigos-manifesto de Le Corbusier, compilados no livro “Por uma Arquitetura”, são esclarecedores na busca de uma arquitetura associada diretamente com a ordem, harmonia e a moral da máquina. Acredito que o modernismo teve um papel essencial para a arquitetura, pois conseguiu catapultar uma série de renovações, ampliou o campo de possibilidades projetuais e incorporou uma série valores no “fazer arquitetônico”. Entretanto, pelo fato de se afirmar ideológicamente como a verdade, a moral, a revolução, e daí como efeito dos novos tempos, estabeleceu um paradigma bastante pretencioso e problemático.
Afinal, qual é a consequência de uma abordagem da arquitetura como resultado lógico de uma época? A resposta é bastante simples. Se a arquitetura moderna é o resultado do desenvolvimento do concreto armado, dos processos industriais e construtivos modernos, da produção em série, ela simplesmente não faz mais sentido em uma era pós-industrial na qual a economia e a produção tecnológica focam cada vez mais em produtos personalizados, e antigas formas de produção estão sendo reinseridas no mercado. Essa transição é descrita por David Harvey no livro “A condição Pós-Moderna”. Acredito que alguns exemplos e indagações podem esclarecer este raciocínio:
1 As formas ortogonais da arquitetura modernista representam um modo geométrico, lógico, racional de se pensar, assimilar e projetar arquitetura, claramente associadas também às ferramentas de desenho técnico. Atualmente, o desenvolvimento de ferramentas digitais possibilita o uso de geometrias complexas, tanto na projetação, quanto na produção de elementos construtivos. Qual o modelo de arquitetura que melhor representa as possibilidades técnicas, o emblêmico pavilhão de Barcelona de Mies van der Rohe, ou o pavilhão da água do arquiteto Lars Spuybroek e seu estúdio NOX ?
2 Se assumirmos que o movimento moderno incorporou na arquitetura diversos avanços da engenharia, como por exemplo a separação entre uma regular estrutura portante e a vedação de uma construção, (como descreve muito bem Lúcio Costa em Razões da nova Arquitetura), vemos uma clara ruptura com um modelo tecnológico “ultrapassado” de paredes portantes das construções antigas. Entretanto, vemos na arquitetura contemporânea, (como no exemplo anterior) o desenvolvimento estruturas biomórficas, irregulares, contínuas, compostas por elementos estruturais personalizados, que não se encaixam nas categorias pilar-viga-laje. Estariam os grandes arquitetos modernos da atualidade como Alberto Campo Baeza, Mathias Klotz ou Paulo Mendes da Rocha fazendo uma arquitetura que não reflete nossa época?
3 Do ponto de vista técnico e produtivo, o que é mais coerente com a lógica do concreto armado, as dispendiosas e sensuais marquises curvas de Oscar Niemeyer, ou as colunas clássicas pré-fabricadas de concreto com acabamento simulando a superfície de uma rocha natural?
Por fim, acredito que esta abordagem “darwinista” da arquitetura não seja muito saudável. Embora o desenvolvimento tecnológico esteja ligado diretamente à evolução das construções, não creio que exista uma forma arquitectônica tão específica de uma tecnologia. O que de fato ocorre é uma legitimação de uma maneira de se utilizar a tecnologia em uma expressào arquitectônica específica. Muitas vezes um discurso arquitetônico regido simplesmente pelo gosto ou pela estética é mascarado como um parecer técnico por meio deste enfoque tecnológico. Além disto, alinhar a forma arquitetônica de uma época estritamente a sua tecnologia é criar surtos de renovaçào arquitetônica alheios ás necessidades humanas. Creio que devemos é utilizar nossa tecnologia, de forma inteligente, para as nossas diversas necesidades, o que inclui a expressão artística.
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