Papai-arquiteto sabe tudo? O discurso arquitetônico desprezando o leigo
Este post foi inspirado numa discussão que ocorreu recentemente na lista arquitetura@yahoogrupos. Um dos aspectos do debate (não o único, e não necessariamente o mais importante para todos os envolvidos) era a aceitação social de edifícios construídos com contêineres, e até que ponto esse estigma estético deve ser levado em conta pelo arquiteto. Em outros termos, o projeto arquitetônico deve levar em consideração as expectativas, e até mesmo os preconceitos estéticos, dos usuários leigos, ou deve o arquiteto fazer aquilo que ele, individualmente, considera mais apropriado?
A anti-estética dos arquitetos
Surpreendentemente (ou talvez não), as enroladíssimas argumentações apresentadas na lista não chegaram a dar uma resposta direta a essa pergunta. Alguns desprezaram minha preocupação com o gosto estético do usuário, seja com o argumento de que o gosto do leigo é negativamente influenciado pela “Sociedade Capitalista” (essa tal S.C. deve ter uma lábia melhor que a do Lula), seja com o de que os problemas a serem resolvidos são de ordem técnica (o velho mito modernista de que a forma segue a função).
No fundo, todos pareciam concordar que preocupar-se com a aceitação social das experimentações arquitetônicas vanguardistas é irrelevante já que cabe apenas ao arquiteto decidir sobre a adequação do seu projeto (perdoem-me os envolvidos se discordarem da minha leitura, mas foi esse sentimento generalizado que eu captei).
No texto abaixo não vou ficar desfiando as diversas teorias atuais sobre a importância do usuário na arquitetura; muitas delas são superficiais, e mesmo as consistentes não vêm ao caso agora. Meu objetivo é apenas apontar algumas razões pelas quais os arquitetos de hoje chegaram ao absurdo de sustentar que só eles sabem o que é bom para os usuário.
Como isto aqui é um post de blog e não uma reportagem jornalística, vou manifestar o meu posicionamento sem nenhuma pretensão de representar imparcialmente todos os pontos de vista envolvidos. A quem estiver interessado recomendo consultar os arquivos do grupo de discussão para ver os argumentos de cada participante, no tópico “Container City”.
Falta de caráter?
Para não dizer que sou só eu e o meu antimodernismo, reproduzo abaixo uma queixa do crítico de arquitetura modernista britânico Kieran Long contra um projeto de Richard Rogers que ganhou o Prêmio Stirling 2009 (de forma um pouco suspeita, vejam o tom defensivo dos depoimentos no vídeo ao lado), atribuído pelo Royal Institute of British Architects (que, apesar de ter royal no nome, é ideologicamente oposto às opiniões do Príncipe Charles):
O que faz com que Rogers incorresse nessa falha de reconhecimento cívico em seu projeto? É difícil arriscar uma resposta direta sem ler os pensamentos do Lorde-Arquiteto-senador-vitalício, mas há uma série de fatores em jogo.
Obra de arquitetura tratada como objeto artístico autônomo
Em primeiro lugar, note-se neste artigo a tentativa do fotógrafo (quase bem-sucedida) em não mostrar nada do entorno urbano, nem seres humanos circulando na calçada. Esse hábito, infelizmente, não é raro nas fotografias de arquitetura, e tem a ver em parte com questões relativas a direitos de imagem (qualquer objeto ou pessoa aparecendo na foto é um problema de direitos autorais em potencial, pelo menos de acordo com as interpretações mais draconianas na jurisprudência anglo-saxã).
No entanto, também é de se aventar um interesse em tratar o edifício como um objeto artístico isolado, importando apenas a sua imagem individual, sobre a qual a cidade, como se fosse apenas um mal necessário, deve ter a menor influência possível. Não vou me deter muito na discussão desse tema, pois a “urbanidade” da arquitetura tem sido muito discutida ultimamente. Basta alertar que boa parte dessa discussão é só da boca para fora. Como memorável e admirável exceção, vou citar o projeto de Norman Foster para a requalificação de uma área central de Estocolmo, mostrado na imagem ao lado (projeto que, não contendo nenhuma “bolha assassina” fosforescente de 200 metros de altura, foi previsivelmente criticado pelos vanguardólatras de plantão; como os adoradores de novidade são repetitivos!).
Ausência (ou abandono) de significantes socialmente inteligíveis do caráter do edifício
Desculpem a linguagem pernóstica, era uma questão de concisão do título. Agora trocando em miúdos. Algumas teorias em voga nos dias de hoje consideram a arquitetura como uma forma de linguagem, organizada de modo semelhante à linguagem verbal (oral ou escrita). Se aceitarmos essa analogia, é preciso admitir que muitos edifícios “de autor” (e não só os da marca FrankGehry™, mas muitos outros) estão mais para um Ulysses de James Joyce do que para uma linguagem inteligível à maioria dos seres humanos.
O Ulysses tem seu (importante) lugar na história da literatura? Tem, sim. Mas é um livro que as pessoas podem escolher ler ou não (bom, excetuando-se os alunos matriculados em disciplinas de Literatura Inglesa Moderna, que serão obrigados a lê-lo). Edifícios, assim como outros ocupantes do espaço urbano, via de regra não podem ser contemplados ou ignorados à escolha do freguês: são uma imposição, e por isso devem ser projetados com mais consideração com a coletividade do que o experimentalismo artístico de quem produz um livro ou um quadro.
E aí entra a importância dos significantes. Quem lê Ulysses está preparado (na medida do possível) para uma obra que vai questionar a própria estrutura da linguagem compartilhada entre todos. Quem circula na cidade não tem a mesma expectativa. Ou melhor, se a tem, é no sentido de esperar que aqueles edifícios que rompem com a estrutura inteligível de significados sejam edifícios excepcionais por sua natureza. Isto é, existe a expectativa de que uma casa se pareça com uma casa, uma igreja se pareça com uma igreja, um posto de gasolina seja identificável como tal, e assim por diante. Esse “parecer-se com…” depende de convenções sociais compartilhadas, do mesmo modo que a compreensão da linguagem falada depende dos significantes convencionais que são as palavras.
Para ser conceitualmente estrito: não existe nenhuma lei universal da natureza determinando que a “casa” seja um objeto com porta, janelas, e telhado. Da mesma forma que não existe nenhuma lei universal da natureza garantindo o significado das palavras que compõem esta frase: são apenas convenções que os falantes da língua portuguesa aprendem desde pequenos. A “imagem” convencional da “casa” edificada também é um hábito cultural ao qual as pessoas criadas na civilização ocidental, com variantes nacionais e regionais, aprendem a reconhecer intuitivamente como significando “casa”.
Então, quando o crítico modernista Kieran Long aponta que o edifício de Rogers é incapaz de apresentar a identidade cívica do seu propósito, isso implica que houve uma brecha no emprego de uma linguagem socialmente reconhecível para “significar” relevância cívica. Implicitamente, Long sugere que isso é um defeito do projeto. No entanto, um dos pontos em discussão na nossa lista de arquitetura foi justamente a pertinência dessa identidade entre expectativa social e projeto arquitetônico. Isto é, a incapacidade (ou recusa) do arquiteto em empregar uma linguagem socialmente reconhecível seria realmente um “erro” de projeto?
Expectativa e conformismo
Existem motivos perfeitamente razoáveis para se responder “não” à pergunta acima. Todos eles giram em torno da atitude crítica (que sempre se deve ter) diante da sociedade, e da imagem cultural projetada por/para certos segmentos dessa sociedade. A obra de Pierre Bourdieu já inspirou vários estudos sobre a importância do “poder simbólico”, aquele que permite não apenas a perpetuação de desigualdades minimizando o uso da força física, mas que faz até mesmo as classes “dominadas” apoiarem voluntariamente a posição das classes “dominantes” por meio da difusão de certos valores sócio-culturais.
Claro que isso é simplificar e distorcer bastante as sutilezas bourdieuanas, mas como ferramenta descritiva está à altura de um modesto post de blog como este. Em resumo, o que se deve extrair dessa postura crítica é a pergunta: é legítimo recusar-se a atender a expectativas sociais quando estas representam uma situação socialmente/culturalmente/intelectualmente condenável aos olhos do arquiteto?
A relevância dessa questão para a prática arquitetônica é altamente problemática. Manfredo Tafuri, em seu Progetto e utopia, fez a crítica devastadora da ilusão que os arquitetos têm de poder influenciar a sociedade por meio de seus projetos. Para ele, a estrutura capitalista pós-industrial dispensa as ideologias, sejam elas políticas ou espaciais, sendo portanto supostamente invulnerável a qualquer tentativa de “revolução pela arquitetura”. Ele não condena toda a arquitetura à irrelevância, mas é preciso lembrar que nenhuma obra arquitetônica, antes ou depois do surgimento da ideologia modernista, conseguiu atingir qualquer objetivo social que já não estivesse previamente na mira de intenções políticas não-arquitetônicas. Quem não compactuar com o poder não constrói: se a prefeitura exige bancos “anti-mendigo” e o arquiteto se recusar a projetá-los, azar do arquiteto.
Nesse sentido a redenção “ideológica” da arquitetura não pode ser influenciar a organização social, ou mesmo o imaginário cultural da sociedade. Ao eximir o capitalismo pós-industrial de uma postura ideológica programática, Tafuri na verdade está descrevendo o formalismo apolítico da arquitetura de vanguarda contemporânea, que já abandonou a ilusão revolucionária do Movimento Moderno.
Historicismo e fim da história arquitetônica
De fato, isentos da determinação ideológica do Movimento Moderno, os arquitetos vanguardistas de hoje estão livres para adotar qualquer posicionamento intelectual que justifique seus formalismos. Entretanto, dentre várias posturas existentes hoje, duas linhas de pensamento são dominantes.
A primeira trabalha com o pressuposto de que a arquitetura é, no fim das contas, apenas um jogo formal irremediavelment submisso à lógica do mercado e da mídia global. Nessa lógica, o arquiteto só pode tentar expressar sua individualidade criativa da maneira mais forte possível, esperando que isso o torne mais “vendável”, levando suas obras a capas de revistas e tornando-as pontos turísticos incontornáveis. Tudo o mais, questões sociais, funcionais, tecnológicas, éticas, é determinado pelo mercado e não há nada que o arquiteto possa fazer nesses domínios a não ser adequar-se ao que lhe é solicitado ou, no máximo, explorar avanços tecnológicos palatáveis ao “mercado”. A arquitetura-Ulysses deixa de ser uma causa ideológica para se tornar uma marca comercial.
Muitos arquitetos trabalham na realidade com essa primeira linha de pensamento, mas sei de poucos que teriam coragem de confessar (Rem Koolhaas chega perto, e é um dos poucos que têm um discurso coerente com a prática), muito menos defendê-la com unhas e dentes.
Muito mais passional é a segunda linha de pensamento dominante. Segundo esta, o arquiteto ainda tem o dever cívico de sustentar a chama da salvação arquitetônica, contra todas as forças perversas do mercado, da imbecilização coletiva promovida pela mídia no interesse das elites, e o que mais vier. É quase um revival da ideologia do Movimento Moderno, com a diferença de que a retórica revolucionária-social foi substituída por um discurso (moldado pela experiência social-democrata do pós-guerra) valorizando a transformação gradual, centrada na cultura estética da sociedade. Várias tentativas de reabilitação intelectual do Movimento Moderno participam dessa linha.
Demolição do conjunto habitacional Pruitt-Igoe, em St. Louis, Mo., Estados Unidos, 1972. Projetado por Minoru Yamasaki em 1954 e premiado pelo American Institute of Architects, o complexo ilustra bem o ditado: “o inferno está cheio de boas intenções”.
Ora, nessa maneira de pensar, se não é mais o caso de se fazer uma revolução arquitetônica, o papel do arquiteto é pelo menos o de pacientemente construir uma cultura arquitetônica que não sustente o statu quo sócio-político, mas contribua para a sua superação. Uma admirável vocação, se não fosse pelos pressupostos ideológicos sobre os quais ela se apóia. Para ser válida, essa postura precisa considerar implicitamente que:
- a sociedade (do meu país, da minha cidade, ou do meu planeta) tal como ela existe hoje apresenta uma organização e uma hierarquia condenáveis;
- essa organização social está apoiada em ideologias culturais que permitem o exercício de um poder simbólico ilegítimo por parte das elites;
- por isso, as aspirações culturais/habitacionais/estéticas que as classes baixas manifestam são também ilegítimas, resultado da dominação cultural das elites;
- eventualmente a própria elite pode estar inconscientemente prisioneira do seu próprio poder simbólico, incapaz de fugir às convenções que representavam seu poder;
- em conseqüência dessa situação, a produção cultural “espontânea” da sociedade atual contribui para a manutenção da situação considerada condenável.
E, finalmente, o pressuposto-mor que legitima essa linha de pensamento:
- o arquiteto (provavelmente depois de ter sido aluno do sociólogo pós-modernista, ou do filósofo deconstrutivista) é um ser clarividente que enxerga essas contradições e se auto-atribui a missão de fazer projetos “críticos” (ou “explorações”, num discurso mais soft). Estes projetos, se não contribuírem diretamente para a superação da situação condenável atual, pelo menos se eximem da pecha de estarem sustentando a mesma…
Em suma, estamos diante do velho discurso mofado da “dialética” marxista, requentado com um molho diferente. Claro que o arquiteto estará trabalhando sempre no interesse do povo (e não no do seu próprio ego inflado) para guiá-lo em direção à redenção estética e à superação do poder simbólico representado pelo estereótipo da casa burguesa…
Ambas as linhas de pensamento citadas têm em comum, no entanto, o fato de postularem um “processo” histórico impessoal e determinante (mais uma vez a sombra do marxismo, baseado numa leitura superficial de Hegel) como pré-condição para se validarem. Tafuri, como um marxista mais consistente, foi capaz de perceber o quanto o discurso arquitetônico contemporâneo é ilusório, mas também ficou preso à sua concepção de uma história determinante.
Por uma arquitetura realista
Além disso, ambas as linhas de pensamento concebem a arquitetura como uma prática que transcende a realidade social. A primeira imagina um arquiteto condescendente com o marketing contemporâneo, aristocraticamente oferecendo suas formas geométricas (ou orgânicas) para que a mídia e o mercado valorizem sua marca. A segunda imagina o arquiteto como uma espécie de observador externo, capaz de enxergar as estruturas de poder simbólico mas ele próprio imaginando-se livre da estrutura que observa. O que o sociólogo tenta realizar pontualmente nas suas pesquisas, um observador isento, o arquiteto-crítico (que com falsa modéstia já não se intitula o salvador da pátria do Movimento Moderno) fantasia ser permanentemente.
Duas posturas, portanto, derivadas no fundo de um mesmo conjunto de pressupostos. A principal diferença é que arquitetos famosos costumam se contentar em ser os xodós do marketing, enquanto que a posição de “crítico” é a alternativa daqueles que não têm nenhum projeto badalado para mostrar.
Não vou discutir aqui os méritos da primeira linha de pensamento; gostando ou não dos seus pressupostos ideológicos, ela serve bem a quem já está na crista da onda. É, portanto, mais uma solução de conveniência do que uma opção intelectual por princípios. Além disso, é a segunda que tem mais peso entre aqueles que, por não terem uma obra reconhecida, ficam gastando seu tempo discutindo em listas de discussão e blogs… Objetivamente, os problemas com os seus pressupostos ideológicos são estes:
- a sociedade atual pode até ser condenável, Tafuri já mostrou que não é o arquiteto que vai mudar a sociedade; além disso, toda sociedade ideal ou idealizada é a imagem de um raciocínio totalitário, pois dar forma ao “ideal” depende de um pensamento único (quantos grandes arquitetos do século XX foram apagados da história que se estuda nas faculdades por não se adequarem à ideologia da marcha triunfante e irresistível do modernismo!);
- o poder simbólico existe; no entanto, dizer que ele é ilegítimo é um argumento materialista a partir do pressuposto de que só as relações entre forças produtivas é que são legítimas;
- as elites podem se dar ao luxo blasé de esnobar o conhecido e idolatrar a novidade; para as classes baixas, imitar o gosto dominante é um sinal de ascensão cultural;
- o arquiteto-crítico pode até achar que um pastelzinho de feira com caldo de cana é mais “legítimo” do que a novela das 8 na paisagem cultural das classes baixas; ao defender a rejeição dos “valores burgueses”, ele está na verdade enfatizando a distinção social entre o pobre e o burguês; da mesma forma que os “comissários do povo” soviéticos se legitimavam como “guias” de um proletariado ainda não esclarecido, apenas para melhor oprimi-lo.
Contra o justiceiro arquitetônico
Casa vanguardista patrocinada pelo esmoleiro de Hollywood, Brad Pitt, em New Orleans. Será tudo o que a população local queria, ou eles preferiam casas com cara de casas?
Estaríamos então condenados à onipresença dos anões de jardim como representantes legítimos da arquitetura popular? Num certo sentido, sim. A cruzada pela erradicação do “mau gosto” é obviamente uma causa perdida. Isso não quer dizer que o arquiteto deva se contentar com reproduzir tudo o que há de mais vulgar na cultura popular.
No entanto, há uma diferença entre a pretensão do arquiteto em monopolizar o bom-gosto (o que por si só já é altamente discutível e historicamente excepcional, pois os arquitetos de antigamente apenas seguiam o gosto das classes dominantes), que pode ser inócua, e a prepotência em impor essa sua visão aos outros. Os arquitetos, desde o século XIX, têm tentado pegar carona no “culto ao especialista” que a ciência e a tecnologia modernas promoveram com respeito a profissões estratégicas como as engenharias e as ciências naturais. Mas, enquanto que estas profissões realmente têm o monopólio de vários conhecimentos vitais para a civilização moderna, arquitetos (e economistas, diga-se de passagem) apenas fantasiam que o seu conhecimento é especial e exclusivo.
Não estou falando aqui em competência profissional, algo que realmente custa esforço e trabalho e, portanto, a dedicação à profissão de arquiteto. Estou falando na autoridade para discutir a estética e o caráter dos edifícios. Para uma grande parte da arquitetura produzida no Brasil, resultado da autoconstrução, essa questão é irrelevante: nenhum arquiteto sequer chega perto dela. Para outra parte, aquela produzida para as elites na forma de residências de luxo ou sedes corporativas, é só problema de quem abdica do seu livre-arbítrio para engolir a conversa mole dos arquitetos.
O bicho pega quando o caso é habitação de interesse social (como se “social” fosse sinônimo de “pobre” e os ricos não fizessem parte da sociedade). Sem o poder econômico da classe média, os pobres vão morar em qualquer coisa que se lhes for oferecida pelo governo. Obviamente qualquer porcaria “de material” é preferível a um barraco de papelão. Isso não quer dizer que, depois de cumprida a exigência de oferecer um teto durável, o arquiteto tenha liberdade para brincar de casinha vanguardista com a população carente.
Justificar arquitetura experimentais só porque é melhor do que o barraco onde o pobre vivia antes não quer dizer nada. A quantidade de gesseiros vendendo colunas, sancas e balaustradas nos bairros de classe média das cidades brasileiras mostra claramente a diferença entre o gosto da população e o do arquiteto médio, mesmo quando alguém se diz feliz em ter uma moradia projetada. Mas a maioria dos arquitetos ainda insiste em tratar essa população como seres inferiores em matéria de gosto, e não perde a oportunidade de “doutrinar” culturalmente os pobres, obrigando-os a viver de acordo com o gosto estético dessa pequena comunidade alienada que freqüentou faculdades de arquitetura.
Relativizar o problema
Num certo sentido, essa discussão toda é uma certa perfumaria diante dos problemas estruturais muito mais sérios da habitação popular no Brasil: falta de um projeto urbanístico coerente nos conjuntos habitacionais, ausência do Estado e penúria de serviços públicos para a população carente… Mas também não é como se, varrendo o problema do gosto estético para baixo do tapete, as outras questões mais urgentes fossem automaticamente ser discutidas e resolvidas (como o velho, e falso, dilema entre salvar as baleias ou as criancinhas passando fome).
Não se deve esquecer, porém, que o juízo estético está ligado à auto-estima de quem o emite. Se o Estado, por intermédio dos arquitetos, desse sinais sistemáticos de que ele não valoriza o gosto popular, de que só são boas as experiências vanguardistas e, finalmente, de que os pobres não têm direito a uma casa que se pareça com as casas da classe média “inculta”, qual é a conseqüência disso para a auto-estima dessa população carente? Casinhas populares, tais como elas são feitas no Brasil, são um desastre em matéria de urbanismo, mas arquitetonicamente correspondem perfeitamente à expectativa estética daqueles que vão virar proprietários do seu próprio lar.
Para recolocar a questão na sua devida escala, sem exagerar nem minimizar a sua importância, concluo com uma pergunta. Até quando os arquitetos vão continuar desprezando o gosto do usuário?
Comments
minha casa minha vida
Quais as implicações que a identificada mudança de cursos dos movimentos populacionais tem para sua profissão como arquiteto?
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