High-Tech ou Low-Tech?

Os avanços tecnológicos da Revolução Industrial se fizeram sentir na produção e na estética da arquitetura desde o final do século XVIII, mas é a partir da década de 1960 que aparece um discurso tecnológico na arquitetura realmente integrado com o processo de projeto. Esta tendência já se introduzia na obra tardia de Le Corbusier, mas ganha força nos projetos de Renzo Piano, Richard Rogers e Norman Foster.
 
Aqui não é o lugar para se fazer um estudo aprofundado do ideal tecnológico na arquitetura moderna. Peter Collins (Changing Ideals in Modern Architecture) já fez um belo apanhado do papel que o fascínio pela tecnologia teve nos arquitetos dos séculos XIX e início do XX. Mesmo assim, precisamos estabelecer algumas definições antes de ir mais adiante.
 

Tecnologia e determinismo histórico

Tomando a palavra tecnologia no seu sentido mais amplo, ela exprime simplesmente a aplicação possível das habilidades (τ?χνη ) segundo o melhor conhecimento (λ?γος ) do artesão. Meio fora de propósito para um artigo sobre high-tech. Que tal definirmos a tecnologia como o aperfeiçoamento das técnicas de construção ao longo do tempo? Parece mais adequado ao assunto, mas ainda assim vamos ter problemas. Os avanços das duas Revoluções Industriais e da atual "revolução digital" nos dão a falsa idéia de que as técnicas pouco evoluíram nos 10.000 anos anteriores de história da civilização. Por outro lado, eles também nos fazem ver a arquitetura dos últimos 250 anos como um simples produto (único e legítimo) destes avanços. Daí, emite-se o corolário de que a arquitetura da sociedade tecnológica se utiliza de todos os avanços e os expressa na forma do edifício. Lamento cortar o barato dos tecnólatras, mas a definição de tecnologia com a qual estamos trabalhando não vê as coisas por esse ângulo.
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Vamos estabelecer o abrigo primitivo do homem pré-histórico como o "marco zero" da tecnologia da construção. Ele foi reconstruído de maneira bastante fantasiosa ao longo da história, mas a arqueologia confirma que se tratava em geral de sistemas traveados, apoiados no mínimo em duas colunas, com uma viga de cumeeira. (Laugier, estás vingado!) A partir daí, a história da arquitetura é uma sucessão contínua de avanços tecnológicos. Paredes portantes de barro, mais tarde de pedra, tijolo cozido, e concreto; carpintaria dos telhados; abóbadas e cúpulas; arcos-botantes e tirantes horizontais; a invenção do prego e do parafuso; vidro e policarbonato; concreto moderno e aço... Vejamos o exemplo das estruturas metálicas. O ferro é conhecido no Ocidente desde o final do segundo milênio a.C., e no Oriente desde o século VII a.C. Os romanos já forjavam encanamentos e pregos de chumbo. As primeiras aplicações do ferro como material estrutural remontam à Idade Média, e não são os pregos. Tirantes de ferro reforçavam a estabilidade das longas arcadas paralelas das basílicas italianas. Em 1420, Brunelleschi elabora o seu famoso método para construir a cúpula da catedral de Florença usando uma corrente de pedra com grampos de ferro. No final do século XVIII aparecem as primeiras colunas de ferro fundido, e em meados do século XIX a técnica mais difundida para a construção de cúpulas é através do uso de treliças de aço. Durante todo o século XIX a tecnologia de construção de pontes em treliça metálica se consolida. Ela pouco mudou desde a construção da ponte do Brooklyn (1886) até hoje, sofrendo apenas refinamentos. Aí vem a historiografia contemporânea: então os diversos estilos arquitetônicos são a expressão dos avanços tecnológicos de suas civilizações respectivas. E, como o ser humano nunca resiste a transformar uma declaração ontológica (o que é) numa declaração deontológica (o que deve ser), formulamos o já citado corolário: logo, a arquitetura de hoje deve expressar na sua forma a tecnologia de ponta desenvolvida pela sociedade atual. Linda conclusão. Eu só vejo dois probleminhas nela: (1) Ninguém tem a obrigação de usar as tecnologias mais avançadas só porque elas existem; e (2) Nenhuma tecnologia avançada vem com um estilo arquitetônico embutido. Estamos numa sociedade democrática, onde existe a liberdade de expressão, lembram?
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Tecnologia e expressão do ideal tecnológico

Nenhuma tecnologia avançada vem com um estilo arquitetônico embutido. Vamos comparar, por exemplo, duas estruturas treliçadas construídas no século XX. Ambas vencem um vão similar, e têm a mesma função de facilitar a circulação de um grande número de pessoas no espaço que elas abarcam. A primeira é o Grand Central Terminal de Nova York, projetado por Warren & Wetmore e Reed & Stern, e concluído em 1913. A segunda é o terminal da Air France no aeroporto internacional de Paris Roissy-Charles de Gaulle (não é o que desmoronou).
Que o terminal de Roissy é uma bela obra de arquitetura high-tech não há dúvida. Mas até onde eu saiba, a abóbada decorada e as pilastras em estuque não impedem as treliças do Grand Central Terminal de funcionar adequadamente, nem o público de circular livremente pelo saguão (já as escadas rolantes do terminal de Roissy atravancam um pouco a circulação horizontal). Além disso, o Grand Central é um símbolo cívico de Nova York há noventa anos, ponto de encontro e monumento fotogênico da cidade. Não conheço muita gente que pegue o trem de Paris a Roissy só para fotografar o terminal, e se quisessem construir um arranha-céu em cima dele duvido que alguém reclamasse. Está fora de discussão, portanto, a adequação dos dois edifícios às suas funções. Quanto à popularidade das arquiteturas entre o público, um terminal de aeroporto tem a desvantagem natural de não ser um ponto de encontro urbano, portanto vamos dar uma colher de chá e considerar empate. Superados os argumentos funcional e estético, sobra só o argumento ideológico a favor de uma expressão visual high-tech na arquitetura. Para certos arquitetos como Peter Eisenmann, trata-se de um mero determinismo das técnicas de construção sobre a forma arquitetônica; vamos ver este ponto mais adiante. Para outros, é uma questão de criar uma "expressão artística do nosso tempo". Os críticos de arte sabem muito bem que uma pintura não é mais ou menos contemporânea se ela for feita com acrílico em tela, óleo em papel, ou tinta de parede em lona. O que importa é a forma e o conteúdo simbólico.
Ora, se arquitetura é arte, por que ela haveria de se reger por regras diferentes das outras artes plásticas? E se a arquitetura não é arte, por que se preocupar tanto com uma posição estética? Na arquitetura contemporânea, o discurso da eterna novidade se confunde com o da expressão tecnológica. Exibir as tripas do equipamento mecânico na fachada (ainda que a eficiência tecnológica dite que quanto mais enterrado no centro do prédio, melhor) não é só venerar o próprio progresso; é contrapor-se ao antigo low-tech, anunciar a inevitável obsolescência do edifício que o precedeu por apenas alguns meses. Infelizmente, não vejo muita mudança à minha volta. A única grande revolução na moradia dos últimos 500 anos foi a água encanada, e no ambiente de trabalho, o escritório encanado, sem luz ou ar naturais (que brilhante conquista da modernidade! e já estamos aprendendo a viver sem comida natural também). Se o computador permitiu o projeto e gerenciamento de sistemas muito mais complexos do que antes, isso não se refletiu num anseio humano irresistível por formas mais complexas. Esta liberdade criativa é sem dúvida uma vantagem (o panorama da arquitetura universal seria muito mais chato sem a Ópera de Sydney), mas não pode se transformar num totalitarismo da criatividade, onde o único parâmetro é o mais novo disparate da semana.

Tecnologia e sustentabilidade

Ninguém tem a obrigação de usar as tecnologias mais avançadas só porque elas existem. Da mesma maneira que ninguém é obrigado a endossar uma estética high-tech, tampouco temos que projetar um prédio efetivamente high-tech para fazer frente às "necessidades do século XXI", ou coisa que o valha. Sério mesmo? E os grandes prédios de escritórios, ou sedes institucionais, não precisam de sistemas avançados de estruturas, ar condicionado, controle de iluminação? A universalização do high-tech parece inevitável pelo menos no campo das megaestruturas, mas vou dar dois motivos pelos quais a opção pelo high-tech não é nem inevitável, e nem mesmo recomendável em alguns casos. O primeiro é econômico, o segundo ecológico. A pré-fabricação surgiu nos países industrializados em resposta aos salários crescentes da mão-de-obra não especializada e à pressão cada vez maior dos financiadores por retornos rápidos nos investimentos da construção.
Nos Estados Unidos, onde o salário mínimo é um dos mais altos do mundo ($5,60/hora), qualquer processo de industrialização que dispense a intervenção humana e permita uma montagem rápida na obra, usando um número mínimo de operários pelo menor tempo possível, é economicamente mais viável do que processos que usem materiais baratos mas que demandem trabalho humano intensivo. Várias distorções da legislação fiscal e do parque industrial americanos contribuem para essa situação extrema, mas vamos admitir que seja uma condição atingível se o Brasil chegar a ser uma potência industrial. Um segundo fator que contribui para a viabilidade do high-tech no mercado atual é o altíssimo valor agregado da metragem quadrada vendável em relação ao custo do terreno onde ela foi construída. Num lote metropolitano típico do Brasil e dos Estados Unidos, vale mais a pena construir um paralelepípedo maciço utilizando-se sistemas de ventilação, iluminação e movimento mecânicos do que um edifício com iluminação e ventilação naturais. Com apagão e tudo. O problema é quando o mesmo modelo é aplicado em lotes espaçosos fora do centro; a única justificativa acaba sendo uma certa inércia do sistema — o arquiteto está acostumado a projetar assim, o engenheiro a especificar assim, a construtora a construir assim, o banco a financiar projetos assim, a pefeitura a aprovar projetos assim. Se alguém resolve fazer diferente, a cadeia entra em colapso, acarretando custos extra para todos.
O papel do custo da mão-de-obra no encarecimento da construção é real, mas amplificado no Brasil (onde o operário recebe um salário de fome mesmo) porque nós adoramos usar um sistema construtivo que demanda ao mesmo tempo muita mão-de-obra e uma tecnologia industrializada: o concreto armado. Trocar o concreto por um sistema industrializado, mas que precise de menos mão-de-obra, realmente é uma economia. Mesmo assim, quem pensa que a solução para o longo prazo será trocar cada vez mais a mão-de-obra por industrialização pode estar iludido. Vamos dar uma olhada nos salários médios dos trabalhadores da construção civil no Distrito Federal entre 1995 e 2004.

Salários horários medianos por categorias profissionais

01/95
01/96
01/97
01/98
01/99
01/00
01/01
01/02
01/03
01/04
09/04
Aumento %

Armador
0,87
1,14
1,30
1,41
1,51
1,58
1,69
1,80
2,13
2,46
2,61
200,00

Bombeiro hidráulico
0,87
1,14
1,30
1,41
1,51
1,58
1,69
1,80
2,13
2,46
2,61
200,00

Carpinteiro de esquadrias
0,87
1,14
1,30
1,41
1,51
1,58
1,69
1,80
2,13
2,46
2,61
200,00

Carpinteiro de formas
0,87
1,14
1,30
1,41
1,51
1,58
1,69
1,80
2,13
2,46
2,61
200,00

Eletricista
0,87
1,14
1,30
1,41
1,51
1,58
1,69
1,80
2,13
2,46
2,61
200,00

Ladrilheiro
0,87
1,14
1,30
1,41
1,51
1,58
1,69
1,80
2,13
2,46
2,61
200,00

Mestre-de-obras
2,72
3,86
4,39
4,74
5,01
5,34
5,68
6,11
7,09
8,23
8,72
220,59

Pedreiro
0,87
1,14
1,30
1,41
1,51
1,58
1,69
1,80
2,13
2,46
2,61
200,00

Pintor
0,87
1,14
1,30
1,41
1,51
1,58
1,69
1,80
2,13
2,46
2,61
200,00

Servente
0,57
0,74
0,84
0,91
0,97
1,02
1,09
1,16
1,38
1,59
1,69
196,49

Fonte: IBGE - Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil

Agora vejamos a variação do salário mínimo no mesmo período: 

Salário mínimo nacional

01/95
01/96
01/97
01/98
01/99
01/00
01/01
01/02
01/03
01/04
09/04
Aumento %

R$70,00
R$112,00
R$120,00
R$130,00
R$136,00
R$151,00
R$180,00
R$200,00
R$240,00
R$260,00
R$260,00
271,43%

Fonte: O Estado de S. Paulo - estadao.com.br

Logo, os salários médios da construção civil aumentaram menos do que o já miserável aumento do salário mínimo nos últimos dez anos. Quando o mínimo brasileiro chegar a padrões civilizados, a tendência é que a taxa de aumento dos salários da mão-de-obra da construção civil diminua ainda mais. E não é tudo: só entre junho de 2003 e janeiro de 2004, o preço do aço maquinado nos Estados Unidos subiu 66%, chegando a $675 por tonelada britânica (800kg) (Fonte: Miami Herald). No Brasil, o aumento nos seis primeiros meses de 2004 foi de 50% (Fonte: SIMECS); imagino que, não fosse a recessão, o aumento teria sido maior ainda. Dados para outros produtos de alta tecnologia usados na construção civil são mais difíceis de obter, mas praticamente todos são feitos com matérias-primas metálicas sujeitas a flutuações bruscas de preço. Estes produtos não estão só ficando cada vez mais caros; o preço deles também está aumentando muito mais rápido que o de materiais de construção tradicionais:
 

Preços medianos por materiais e serviços

01/95
01/96
01/97
01/98
01/99
01/00
01/01
01/02
Aumento

Tijolo maciço 6x11x22 - milheiro
R$73,13
R$82,06
R$100,00
R$108,15
R$108,37
R$139,70
R$117,75
R$137,64
88,21%

Tijolo furado 10x20x20 - milheiro
R$130,00
R$127,50
R$142,00
R$148,13
R$146,00
R$210,00
R$180,00
R$218,57
68,13%

Gesso (em pó) - kg
R$0,45
R$0,65
R$0,70
R$0,70
R$0,80
R$0,80
R$0,90
R$0,96
113,33%

Barra de aço (vergalhão) c. a. 50 de 5/8 - kg
R$0,65
R$0,71
R$0,74
R$0,74
R$0,72
R$0,93
R$1,03
R$1,37
110,77%

Barra de aço (vergalhão) c. a. 25 de 3/16 - kg
R$0,76
R$0,77
R$1,28
R$0,90
R$0,88
R$1,25
R$1,29
R$1,84
142,11%

Fonte: IBGE - Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil

Imagino que, com o aumento contínuo no custo dos materiais high-tech, e sua dependência de matérias-primas não renováveis (metais, hidrocarburos), a opção pela arquitetura high-tech vai se tornar inviável até nas situações em que ela atualmente leva vantagem sobre a construção tradicional. E isso é só uma análise econômica. No campo da sustentabilidade, a arquitetura high-tech tem um desempenho pior ainda. Muitas vezes associamos a arquitetura "verde" sustentável com edifícios high-tech, onde luzes controladas por computador e aberturas de ventilação com formas arrojadas e materiais modernos ajudam a economizar energia, preservar o meio ambiente, salvar as baleias e tornar a grama mais verde. A verdade é que, excetuados alguns projetos que realmente compensam o impacto da industrialização, o high-tech é mais uma fantasia de projeto de arquitetura do que uma tendência inelutável.
 

 

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