Estação de Chuvas, Deslizamentos e Deslizes
Persiste a heróica luta dos governadores do Rio de Janeiro e de São Paulo contra a impunidade de São Pedro. Enquanto isso, Brasília caminha a passos largos para padecer dos mesmos problemas urbanos e ambientais que acometem as funestas cidades-estrela dos noticiários atuais.
Alckmin e Cabral juraram fazer o santo responder perante o STF pelas chuvas criminosas cometidas na capital paulista e na serra fluminense. Apesar das esporádicas análises lembrando a responsabilidade dos políticos por sancionar, com interesse eleitoreiro, ocupações em áreas de risco — e não oferecer alternativas dignas —, a imprensa tem evitado fazer acusações diretas aos mandatários da hora, ambos continuístas e portanto sem a desculpa da “herança maldita”. Em vez disso, levanta-se a cortina de fumaça jornalística, contando o furto de doações ou a queda-de-braço entre Cruz Vermelha, Igreja e Prefeitura.
No Distrito Federal, apesar da falta de uma tragédia urbanística de grande porte, a lógica se repete, com a vantagem de que por aqui houve, sim, ruptura política. Na fábula governista (qualquer que seja o partido no governo) ultimamente repetida à exaustão nos jornais locais, tudo é herança maldita dos governos anteriores. A “crise” na saúde pública (melhor dizendo, o seu perene estado de calamidade recentemente descoberto pelos políticos) atrai os holofotes a tal ponto que outras matérias relegadas aos miolos de cadernos, como aquelas tratando de urbanismo, noticiam candidamente as presepadas urbanísticas da recém-empossada gestão sem que isso levante qualquer escândalo.
Com três semanas no poder no Distrito Federal, o PT parece estar querendo mostrar por que ficou os últimos doze anos afastado dele. O estranhamento do diretório local do partido com o urbanismo vem de longe, contrariando a tradição de cidades como Porto Alegre onde o PT se destacou, ao contrário, pelas iniciativas urbanísticas (ainda que controversas).
Não que fosse melhor no governo de Joaquim Roriz, notório distribuidor de lotes gratuitos e acostumado a capitalizar sua base eleitoral em cima de assentamentos irregulares que ele nunca tratou de regularizar. Mas a passagem de Jaime Lerner e Cássio Taniguchi pela gestão escandalosa e amputada de José Roberto Arruda, também colorida pelas mobilizações da crítica profissional e diletante em torno dos projetos da Praça da Soberania de Oscar Niemeyer e do restauro da Igrejinha, deixou um gosto de “quero mais”, ou de, com perdão do bordão eleitoral, “Brasília pode mais”. E, como sempre, o retorno de um partido “de esquerda” ao poder costuma ser acompanhado da esperança de que, desta vez sim, questões sociais e urbanas sejam devidamente levadas em conta.
No próximo post: um balanço parcial das declarações e intenções urbanísticas do atual Governo do Distrito Federal.

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