Sobre como não desenhar avenidas
Uma resolução do Contran essa semana determinou que todos os radares de velocidade (vulgos "pardais") devem ser colocados em local visível e com placa anunciando a sua existência. Dizem que é o tal "papel educativo" do radar: estamos sendo educados para andar na velocidade que bem entendermos e frear assim que avistarmos uma placa de fiscalização eletrônica. Essa vai para o rol das idéias brilhantes, junto com a não obrigatoriedade do motorista se submeter ao bafômetro, e da instrução aos agentes para avaliar "sinais de embriaguez" sem o uso do mesmo. Mas a resolução também mostra como confiar apenas na fiscalização de infrações (ou na "educação" do motorista para evitar infrações) é uma solução insuficiente para garantir a segurança no trânsito.
É claro que a fiscalização é necessária — afinal, sempre vamos ter aqueles que se sentem ao volante de um Porsche nas nossas estradas de qualidade haitiana. Mas não adianta desenhar auto-estradas alemãs e esperar que elas sejam povoadas por motoristas suíços. Essa é uma prática corriqueira e preocupante aqui em Brasília, e não é só de resquícios do rodoviarismo modernista dos anos 60 que estou falando. Duas vias recentemente duplicadas, a L4 e a L3 norte, são pistas desenhadas para alta velocidade, com curvas muito abertas, faixas de rolamento largas, e sem cruzamentos — somente junções em T e retornos. Só que a L4 tem um limite de velocidade de 70 km/h, a L3 de 60 km/h, e ambas são cruzadas por diversas faixas de pedestres! Ora, por mais otimista que se possa ser com as campanhas educativas do Detran, é uma idéia absurda criar auto-estradas onde há tráfego de pedestres e onde o limite de velocidade é reduzido.
Por que, então, não fazer avenidas urbanas, para acomodar um grande fluxo de automóveis a velocidades mais baixas? A verdade é que não existe, nos planos diretores do Distrito Federal, o conceito de “avenida arterial”. O que temos são “vias” (lá vem o maldito termo genérico outra vez) arteriais, caracterizadas como aquelas que permitem um fluxo em alta velocidade; em seguida, há vias coletoras e distribuidoras, responsáveis pelo tráfego em velocidades menores e sobre distâncias mais curtas. Ou seja, o planejamento urbano da cidade não admite que se pense em qualquer meio de circulação “arterial” que não implique velocidades altas. Quando uma “via” importante cruza uma área urbanizada, não há como fugir do dilema; os engenheiros desenham uma arterial para velocidade de ponta, aí vem alguém em cima da hora e tenta “consertar”, e dar um mínimo de segurança, fixando um limite de velocidade que não condiz com o desenho da pista. Uma lambança dessas só pode mesmo estimular o desrespeito às leis do trânsito.
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