O Capitólio de Roma

Estive em Roma em fevereiro de 2004. Numa manhã em que tive a brilhante idéia de dar uma volta pela cidade a pé, estava chovendo, e eu sem guarda-chuva. O Capitólio é um morro baixo mas bastante íngreme; seu topo foi aplainado por séculos de terraplenagem. Ele tem duas "frentes" tradicionais: uma está voltada para sudeste, por onde as procissões triunfais da Roma antiga atravessavam o Fórum na Via Sacra, e subiam as escadarias do Capitólio para chegar ao templo de Júpiter. A outra "frente", noroeste, é a encosta mais suave, voltada para a região do Campo de Marte, o centro da Roma renascentista.
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Atualmente, a escadaria principal do Capitólio fica do lado noroeste. Ela sai de um canto da Piazza Venezia, produto de um arrasa-quarteirão oitocentista no centro de Roma, cuja única virtude é patrocinar o hábito dos motoristas italianos de atropelarem os pedestres que têm a ousadia de tentar atravessar a rua. Rapidamente descobri que, com exceção desta praça, todos os outros espaços públicos de Roma são bem menores e mais aconchegantes do que as fotos mostram. Dá para ir de São Pedro ao Capitólio em meia hora de caminhada (fiz isso depois de visitar a basílica de São Pedro, subir, atravessar e descer o Janículo a pé para ver o Tempietto, e ainda cheguei no Capitólio antes da hora do almoço). É totalmente o contrário de Paris, com suas avenidas longuíssimas e esplanadas larguíssimas.
Chegando na Piazza Venezia por qualquer direção, temos três perspectivas para olhar. Dando as costas para o monumento a Vítor Emanuel (aquele do "Garibaldi foi à missa") estás olhando para a Via del Corso, uma rua longa e estreita que já existia na Roma antiga, e leva para o norte até a Porta del Popolo (de qualquer forma, eu é que não ousaria virar de frente para o bolo de noiva horrendo que é o monumento). A leste começa a Rua dos Fóruns Imperiais, aberta por Mussolini, que leva ao Coliseu por entre as ruínas dos fóruns. Ao sul, a Rua do Teatro de Marcelo tem uma bela vista do rio Tibre por entre as ruínas do teatro, com o Janículo ao fundo.
Atropelando outros turistas na calçada estreitísima, driblando cartazes de propaganda e toldos de lojas que batem na altura da testa, chega-se ao pé do Capitólio. Na verdade, são três escadarias: à esquerda, a mais íngreme delas, sobe até Santa Maria in Aracoeli, uma igreja medieval construída onde antes era o Altar do Céu, construído por Augusto. Duas escadarias levam à Praça do Capitólio propriamente dita: ao centro, a mais larga, rasa e monumental, com degraus longos e inclinados; à direita, a menor de todas, e mais fácil de subir.
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O Palácio dos Senadores, antiga sede da Cúria papal, domina a praça. O formato da praça, mais estreita que a fachada desse palácio, ajuda a reforçar a impressão de monumentalidade do edifício. No entanto, ele é só um pano de fundo, já que o acesso público é pelo Palácio dos Conservadores, do lado direito. O espaço principal da praça é articulado pela estátua de Marco Aurélio, para a qual o desenho do calçamento converge. Esse desenho, e os dois degraus que delimitam a elipse interior, quebram a impressão de distância e aproximam ainda mais as fachadas idênticas dos dois palácios laterais -- segundo a planta, a largura média da praça é de uns 50 metros (a mesma largura da Av. Paulista); juro que não parecia ter mais do que 30!
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Essas fachadas laterais por si sós já são um show; se a colunata jônica caracteriza a "loggia", as pilastras colossais naturalmente delimitam as "paredes" da própria praça, que aparece então como o salão principal dos palácios, e não mais como um espaço externo a eles. A integração entre interior e exterior é ainda maior porque o acesso da loggia ao corredor central de cada palácio não se dá por uma porta, mas por um vestíbulo cujo formato repete o dos vãos da loggia. Até a posição das escadas principais e do pátio central é simétrica nos dois palácios, mas as semelhanças param por aí. O Palácio dos Conservadores é um edifício amplo em forma de "U", com um jardim entre os braços do U e outro, em forma de estádio, ao longo de uma das suas paredes externas. Já o edifício à sua frente, o Palácio Novo, termina no corredor central. Único dos edifícios do Capitólio construído do zero por Michelangelo, ele é delimitado pela massa da igreja, e a parede posterior do pátio nada mais é do que um muro sem nada atrás.
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Hoje em dia, uma galeria subterrânea liga os dois palácios e permite visitar o subsolo do Palácio dos Senadores, uma estrutura remanescente do Tabularium (os arquivos de estado da Roma antiga, de onde se tem a vista mais espetacular do Fórum Romano (sim, o subsolo do Capitólio ainda é bem mais alto que o nível do chão no Fórum). Como tudo na Itália é sítio arqueológico, parte dessa passarela tem um assoalho de vidro onde se enxergam fundações de edifícios antigos.
Saí do Capitólio descendo a escadaria da Via Sacra em direção ao Fórum. Visto lá de baixo, o Palácio dos Senadores mais uma vez domina a paisagem, elevando-se na beira do penhasco com a sua torre medieval redecorada após a morte de Michelangelo.
(Texto originalmente publicado na lista de discussão arquitetura (@) yahoogrupos (.) com (.) br)

 

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